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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

NAVEGAR É PRECISO EM MEIO ÀS TURBULÊNCIAS

Este escriba com o seu filho, na passeata de domingo 4 de dezembro.

De novo, o horizonte incerto. No entanto, as passeatas de domingo deixaram clara uma coisa: a sociedade brasileira está farta das práticas patrimonialistas. Saí, com a família, para a caminhada de protesto em Londrina. A concentração foi no bairro onde moro. Muita gente. A alegria cívica de  praxe. O foco dos protestos: "Renan Fora" e "Apoiamos Sérgio Moro e a Lava jato". Havia também, em menor quantidade, cartazes de apoio às dez medidas propostas pelo Ministério Público. Uma minoria pregava a intervenção militar.

O importante do fato é que a sociedade brasileira provou, mais uma vez, que está alerta. Não deixará de graça às forças do atraso, a volta por cima no controle do Estado. A manutenção da Operação Lava Jato é essencial ao saneamento da vida pública!

Nas semanas que antecederam houve movimentos de algumas figuras ligadas à defesa da manutenção das práticas patrimonialistas. O que mais ressaltou nisso tudo, foi o "esforço concentrado" das presidências da Câmara e do Senado, no sentido de intimidar Magistrados e Promotores, a fim de ver naufragar a operação de saneamento da gestão pública. 

Ora, as 10 medidas propostas pelo Ministério Público, é evidente que precisavam ser discutidas na Câmara e no Senado. Embora fossem propostas de origem popular, para terem força de lei precisavam passar pelo debate e a aprovação parlamentar. É o que manda a lei. Ninguém pretende que o Brasil passe a ser administrado em assembléia popular. Isso é parte da "democracia dos antigos", como diria Benjamin Constant de Rebecque. As propostas de origem popular devem passar pelo Congresso para se verem institucionalizadas, se forem aprovadas pelos parlamentares nas duas casas. A Democracia Representativa é a essência do nosso Legislativo. Não pode ser deixada de lado.

Se isso é assim, é evidente que algumas modificações deveriam sofrer as 10 medidas propostas pelos Procuradores do Ministério Público. Não se trata, de forma alguma, de um "decreto lei". É uma proposta que tem força, porquanto foi acolhida por mais de 2 milhões de assinantes. Eu assinei a proposta porque me parecia uma forma de dar força à sociedade, num momento decisivo da vida republicana, ao ensejo do impeachment da presidente Dilma. Mas eu esperava que a proposta seria objeto de debate e aperfeiçoamento no Congresso.

Ocorreu que, em cada uma das Casas Legislativas, houve quem pretendeu, ao ensejo da discussão das 10 medidas propostas, deformar o conjunto das reivindicações, a tal ponto que se transformasse em instrumento de intimidação do Judiciário, a fim de barrar definitivamente a Operação Lava Jato. Contra isso me manifestei neste blog, identificando os presidentes das Casas Legislativas e os seus prepostos como "ratos de porão" que trabalham na calada da noite, a fim de destruir o que foi construído pela opinião pública e pelo debate parlamentar honesto. 

Achei razoável o texto que terminou sendo aprovado, em primeira instância, pela Câmara dos Deputados. Mas achei um atentado contra a vontade popular e um desrespeito ao Legislativo, a manobra executada de madrugada, visando a, mediante destaques sordidamente inseridos no texto legal, desmontar a capacidade de investigação da Operação Lava Jato, com o auxílio de artifícios que colocavam os Magistrados e os Procuradores em posição de risco perante a sociedade. A finalidade era a mesma: manter os privilégios de que deitaram mão com avidez parlamentares corruptos. 

A rapidez com que o presidente do Senado deu curso à discussão, por parte desta casa legislativa, ao texto deformado proveniente da Câmara dos Deputados, foi uma prova de que o senador Calheiros busca, apenas, mediante subterfúgios habilidosamente costurados, impedir a acolhida da vontade popular por parte do Congresso. Isso não pode acontecer!

Contra essa chantagem a sociedade se manifestou, pelo país afora, no passado domingo. Felizmente o Senado reagiu em tempo para evitar essa manobra. Haverá um compasso de espera para que um novo texto, próximo ao que foi aprovado em primeira instância pela Câmara, volte a ser colocado sobre a mesa. São as idas e vindas da nau Brasil nas águas tormentosas provenientes das velhas práticas patrimonialistas.

Isso não significa, no entanto, que os brasileiros desconheçamos o esforço que o Legislativo continua fazendo, movido pela pressão da sociedade, para efetivar a aprovação das medidas para saneamento da economia, que estão sendo votadas e aprovadas, felizmente, nas duas casas do Congresso.

A luta continua. O governo Temer deverá seguir adiante nas reformas que estão sendo implementadas. Temos agora a votação da Reforma da Previdência, que é essencial à manutenção da saúde econômica do Estado. Esperamos que a mudança na presidência do Senado, se confirmada pelo plenário do Supremo Tribunal Federal, não retarde a tramitação e a aprovação das medidas em curso.

Ao ensejo destas idas e vindas da nau do Estado neste mar revolto pelo fim de um ciclo e o começo de outro, na intermitente regência do atual governo, recordo as palavras que escreveu Tocqueville nas suas Lembranças de 1848, quando ele, parlamentar comprometido com a defesa da liberdade, se via às voltas com o mar revolto dos interesses egoístas em confronto: "(...) É sobretudo em tempos de revolução que as menores instituições do direito - e mais: os próprios objetos exteriores - adquirem a máxima importância, ao recordar ao espírito do povo a ideia de lei; pois é principalmente em meio à anarquia e ao abalo universais que se sente a necessidade de apego, por um momento, ao menor simulacro de tradição ou aos laivos de autoridade, para salvar o que resta de uma Constituição semidestruída ou para acabar de fazê-la desaparecer completamente (...)". 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O FILHO DO MEDO (Percival Puggina)


Amigos, reproduzo, na íntegra, o artigo do jornalista gaúcho Percival Puggina que desenha, de forma clara, o panorama do Congresso brasileiro, dominado pela defesa insustentável de interesses particulares dos próprios congressistas, que terminaram esquecendo a essência do Poder Legislativo: representar e defender os interesses dos cidadãos. É o mal do Patrimonialismo infernizando a vida da Nação! Tudo na contramão do que deve ser a política, como expressão da vontade popular.


          No último dia 30, naquele horário em que se apagam luzes e televisores e se intensifica a atividade dos cabarés, saqueadores do Brasil transformaram um pacote de medidas contra a corrupção no oposto daquilo para o que foi concebido. Aves de rapina! Fizeram de um colibri algo à sua imagem e semelhança.
          É fácil entendê-los. Quatro perguntas ao leitor destas linhas ajudam a esclarecer tudo. Você, leitor, tem medo da Lava Jato, do juiz Sérgio Moro, de passar uma temporada em Curitiba? Você está preocupado com a delação da Odebrecht? Não? Pois é. Eles sim. Eu os vi esganiçados aos microfones naquela sessão da Câmara dos Deputados. Destilavam ódio e vingança. Comportavam-se como membros da Camorra, da Cosa Nostra, da Máfia italiana. Sua conduta e seus discursos faziam lembrar animais encurralados. O pacote pró-corrupção foi um apavorado filho do medo.
          Não é diferente a situação no poder vizinho. Mal raiara o sol, na manhã daquele mesmo dia, Renan Calheiros já cobrava a urgente remessa da encomenda para o protocolo do Senado. Queria votar tudo em regime de urgência e agasalhar-se com o mesmo cobertor legislativo. Aprovado em modo simbólico, o pacote só não foi adiante porque alguém cobrou que o voto fosse nominal. Nominal? Imediatamente abaixaram-se os braços e o plenário optou pela rejeição. Ouvido, Renan, o hipócrita,  afirmou que a decisão fora muito boa e que a matéria não tinha, realmente, urgência.
          Após o impeachment da presidente Dilma, esse foi, certamente, o episódio político de maior consequência para o futuro do Brasil. Ele noticiou à opinião pública dois fatos que, antes, seria impossível conhecer em toda extensão:
·       A Orcrim, que constitui, no Congresso, verdadeira e atuante Frente Parlamentar do Crime, tem ampla maioria da Câmara dos Deputados, onde aprova o que quer;
·       Os mesmos deputados, que tanto clamam contra os "vazamentos" de informações que os comprometem, vazaram a si mesmos, tornando conhecido seu desejo pessoal de conter as investigações, atacar os investigadores, acabar com as colaborações premiadas, preservar anéis e dedos. Entregaram-se, todos, ao juízo dos eleitores para o tribunal das urnas de 2018. 
     Agora podemos dizer a suas excelências que sabemos quem são e estamos vendo o que fazem. Agir assim numa crise como a que enfrentamos? Convenhamos. Depois da crise, vem o caos. E ninguém sabe o que há depois do caos. A Venezuela ainda não nos mostrou. 
          Escrevo este artigo durante as manifestações populares deste domingo 4 de dezembro. Enquanto escrevo, os poderes de Estado, em suas poltronas, assistem a manifestação do Brasil cuja indignação não é postiça nem indigna. Os cidadãos que lotam avenidas e praças em verde e amarelo, falando com seus cartazes e alto-falantes, são, em seu conjunto, a voz do dono. São a manifestação visível e audível da soberania popular.

________________________________
* Percival Puggina (71), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.


domingo, 4 de dezembro de 2016

MEDELLÍN E A TRAGÉDIA CHAPECOENSE


Comovedora homenagem dos torcedores em Medellín, 30 de novembro
O público brasileiro ficou emocionado ao presenciar a bela homenagem prestada pelos cidadãos de Medellín à equipe chapecoense vítima do brutal acidente de aviação que, no dia 27 de Novembro, no voo da empresa Lamia, entre Santa Cruz de la Sierra e Medellín, terminou vitimando a maior parte da equipe chapecoense, bem como duas dezenas de jornalistas brasileiros, além dos funcionários do clube e a comissão técnica da equipe.

Essa bela homenagem foi espontânea. Qual foi a força que mobilizou mais de cinquenta mil pessoas para que, do fundo do coração, rendessem homenagem tão singela e autêntica, capaz de comover milhões de pessoas que assistiram pela TV, no Brasil e pelo mundo afora, ao ato no estádio Atanásio Girardot de Medellín? Qual foi o motivo que levou ao próprio governo colombiano a se somar à homenagem prestada aos mortos, fazendo com que as aeronaves da Força Aérea Brasileira que transportavam os caixões para o Brasil, fossem belamente escoltadas por aviões da Força Aérea Colombiana, desenhando nos céus de Medellín as cores da bandeira do clube chapecoense?

As razões para esse clima de compaixão coletiva devem ser buscadas na história que as cidades colombianas, particularmente Medellín, viveram ao longo dos últimos trinta anos. Nesse período, a Colômbia sofreu duas guerras: a do narcotráfico e a das FARC. Que o ambiente que se vivia na Colômbia era de violência generalizada não resta dúvida e disso dão testemunho os seriados "El Patrón del Mal" e "Narcos", que contam a história de Pablo Escobar e do Cartel de Medellín, com as suas guerras contra o Cartel de Cali e contra o Estado colombiano. Seriados anteriores como o famoso "Rodrigo D" de Victor Gaviria, premiado em Cannes, já davam conta desse clima de violência que afetava a todos e que parecia não ter fim.

Digamos, de entrada, que a Colômbia escolheu a paz, como destaco no meu livro publicado há algum tempo com o título de: Da guerra à pacificação: a escolha colombiana (Campinas: Vide Editorial, 2010, 165 p.). Mas essa busca não foi apenas um objetivo traçado pelo presidente Alvaro Uribe Vélez em 2002, quando assumiu o poder num país devastado pela guerra interna. Foi também uma opção dos cidadãos, cansados já de tanta violência. O caminho pelo qual enveredaram as cidades colombianas, Medellín à testa, foi o da educação cidadã. Graças a essa opção, complementada com o firme combate, por parte do Estado, aos grupos violentos, foi possível desmontar os cartéis da droga e dominar os guerrilheiros, de forma a que se submetessem às regras do jogo democrático e assinassem a paz, como acabam de fazê-lo os guerrilheiros das FARC.

No contexto da luta contra os traficantes e a guerrilha, Medellín optou pela educação cidadã. Essa opção tinha sido iniciada, nos anos 90, nas pequenas cidades do interior, a partir dos núcleos urbanos administrados por indígenas. 

Segundo a herança deixada pelo Direito Filipino, na América espanhola os aborígenes tiveram a possibilidade de, nas regiões onde predominavam os seus agrupamentos, eleger os governantes locais (prefeitos, vereadores e, a partir da Constituição de 1990, os seus senadores e deputados). 

Ora, foi a partir dos assentamentos indígenas onde as FARC começaram a encontrar resistência cívica não violenta contra as suas arremetidas para impor o "clientelismo armado", após bombardear, pela noite, com grosseiros morteiros que disparavam botijões de gás cheios de dinamite e pregos, a cidade a ser submetida. Na manhã do dia seguinte, com os prédios públicos em ruínas, os cidadãos eram reunidos na praça central, a fim de que identificassem o prefeito e os vereadores, para que assinassem com os meliantes um "contrato" de segurança, lhes passando 10% do orçamento municipal a título de "imposto de segurança". Quem não fizesse isso seria simplesmente eliminado. Foram numerosos os prefeitos e vereadores fuzilados em praça pública pelos guerrilheiros, ao se oporem às injustas pretensões. 

Os indígenas, nos seus povoados, quando foram assim abordados pelos guerrilheiros, após a noite de bombardeio, sentavam em silêncio, todos vestidos de branco, na praça da cidadezinha. Os guerrilheiros ficaram literalmente paralisados. Não sabiam o que fazer. Terminavam por sair da pequena cidade. Essa resistência pacífica à la Gandhi contaminou beneficamente as outras cidades colombianas. Medellín copiou o exemplo.

O prefeito metropolitano que, segundo a reforma constitucional de 1993 passou a ser o chefe das forças de segurança, definia quais os lugares mais violentos da cidade. Ali se tornariam presentes a polícia, e, se necessário, as forças especiais do exército, para eliminarem os focos armados. 120 dias após a intervenção das forças da ordem, o prefeito entregava à comunidade, no lugar onde antes imperavam os foras-da-lei, um belo Parque-Biblioteca com os seguintes serviços: escola municipal totalmente equipada, campos de esporte, posto médico, delegacia policial, agência bancária. Tudo disposto ao redor da Biblioteca Pública. 

Finalidade da ação cívica: mostrar aos cidadãos que o Estado existe, representado na cidade pela Prefeitura e que as instituições vieram para ficar e para defender os cidadãos nos seus direitos básicos à vida, à liberdade, às posses. Todas as obras foram bancadas mediante parcerias-publico-privadas entre a Prefeitura e os empresários locais. Lição fundamental desse liberalismo telúrico de que os colombianos, notadamente os "antioqueños" (habitantes do Departamento de Antioquia) são tão ciosos e que se representam a si mesmos como "o povo que não agacha a cabeça".

Ao longo da primeira década deste milênio foram completadas ações desse tipo ao longo da cidade, nos lugares mais deprimidos social e economicamente e que tinham virado refúgio da guerrilha ou dos narcotraficantes. A cidade foi, assim, pacificada. As taxas de violência, que eram as maiores do mundo, ao longo das décadas de 80 e 90 do século passado, com 300 homicídios por cem mil habitantes, despencaram rapidamente, beirando hoje o nível dos 10 homicídios por cem mil habitantes. E nasceu, entre os habitantes de Medellín, o sentimento cívico de morarem na cidade "mais educada". 

Efetivamente, o slogan colou: "Medellín, la más educada" virou cartão de apresentação da cidade perante o mundo. Hoje, Medellín se orgulha de ser uma cidade vitrine onde se apresenta a solução cívica da conquista da paz pela educação, como mensagem aberta ao mundo. Medellín já virou referência internacional de "soluções criativas" para a conquista da paz e do convívio humano de qualidade. São inúmeros os prêmios internacionais que a cidade recebe anualmente. 

Os habitantes de Medellín já se acostumaram a participar do movimento cívico "Como Vamos", integrado por empresários, universitários, cidadãos comuns, sindicatos e associações profissionais, reunidos ao redor da Câmara de Comércio. Mensalmente, o comitê executivo do movimento estuda a situação do município nos seguintes itens:

Educação,
Saúde, 
Saneamento Básico,
Habitação, 
Meio Ambiente, 
Áreas Públicas, 
Transporte Viário,
Responsabilidade Cidadã,
Segurança Cidadã,
Gestão Pública,
Finanças Públicas,
Desenvolvimento Econômico.

O maior jornal da cidade, El Colombiano, publica mensalmente os resultados da pesquisa, que se tornaram diretriz para o Prefeito. As eleições passaram a privilegiar aqueles candidatos que melhor respondessem, com os seus programas, às expectativas do movimento cívico "Como Vamos", garantindo-assim, nas gestões vindouras, a continuidade administrativa, sem levar em consideração coloração político-partidária.

Essa é a origem do surgimento e preservação da atitude cívica da compaixão, que os habitantes de Medellín mostraram perante o mundo com a sua atitude em face das vítimas da tragédia chapecoense, passando a se apresentar ao mundo como parceiros da dor dos amigos brasileiros. 

Belo exemplo de educação para a cidadania, que renovou a qualidade de vida de uma das cidades mais castigadas pela violência no mundo contemporâneo. Bela lição de esperança para nós, brasileiros, que nos sentimos ludibriados hoje por uma classe política que não olha para os nossos interesses legítimos, preferindo partir para a defesa unilateral dos seus privilégios. A conclusão que salta à vista é esta: se os habitantes de Medellín conseguiram melhorar a sua condição de cidadãos, nós também podemos fazer a mesma coisa, nas nossas cidades castigadas pela violência e a corrupção desenfreadas!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

RATOS DE PORÃO


Não me refiro à banda de  Crossover Trash dos anos 80, bastante boa por sinal. Refiro-me aos parlamentares, que decidiram fazer da legislação em que devem trabalhar, terreno arável para as suas maracutaias. São autênticos "ratos de porão". Trabalham na calada da noite. Enganam os outros, notadamente os eleitores, que lhes confiaram a sagrada missão de representá-los na defesa dos seus interesses. Para isso foram eleitos. Traíram, portanto, a fé pública. É incompreensível que em face da preocupação cidadã com a corrupção, tenha sido essa, exatamente, a área em que os ditos cujos fraquejaram. Quão longe se situam os nossos congressistas da convicção fundamental de Locke, expressa no seu Ensaio sobre o Governo Civil, de que o mais importante poder, no corpo político, é o Legislativo, porque nele tomam assento os representantes dos cidadãos...

Os presidentes das duas Casas Legislativas não estiveram à altura do cargo para o qual foram eleitos. Ora, fizeram das propostas de combate à corrupção que tramitam na Câmara e no Senado, apenas desculpa para praticarem o indefensável: a manutenção das vantagens para os corruptos e a formulação soturna de ameaças contra a Magistratura e o Ministério Público, as duas instâncias que, ao longo dos últimos anos, têm dado combate sem trégua contra a corrupção de políticos, empresários e funcionários públicos a eles aliados.

Claro que os indigitados  podem alegar que trabalharam para garantir a governabilidade. Reuniram-se com essa finalidade, segundo alegam, no dia 27 de Outubro, com o Presidente Temer. Ora,bolas, não somos assim tão ingênuos. O trio, que algum articulista batizou de "Os três patetas da República", apareceu junto para passar a ideia de que não há crise republicana. Os chefes dos poderes Executivo e Legislativo garantiram isso! Mas a crise está mais viva do que nunca.

O Presidente Temer, abdicando da missão que poderia levá-lo às alturas de estadista (se tivesse vestido realmente a camisa da defesa dos interesses da sociedade civil), terminou fazendo o que, corriqueiramente na história republicana dos últimos 30 anos, fez o PMDB com perfeição macunaímica: negociar, atrás dos panos, vantagens para manter, o quanto possível, o velho status quo do patrimonialismo rasteiro, da negociação nas sombras, da construção de um cômodo "centrão" para, atrás dele, abrigar os antigos companheiros de caminhada. Ora, sejamos sinceros, não era isso o que justamente queria a sociedade desmontar quando Dilma foi enxotada do Planalto? 

Desenha-se no horizonte da caminhada hodierna do Brasil, uma repetição trágica dos erros cometidos pelo partido majoritário em face das exigências históricas da Nação. Assim como na Constituinte foi bloqueada no seio do MDB a trilha que conduziria à consolidação da verdadeira representação, com a adoção do voto distrital, hoje essa espúria negociação de vantagens clientelísticas fecha o caminho para que a sociedade realmente passe a controlar o Estado, não para continuar a ser controlada por ele.

Claro que há congressistas honestos, nessa maré medonha de clientelismos tacanhos. Mas, infelizmente, é uma minoria. A política continuará a sua caminhada rumo à aprovação, a toque de caixa, da agenda das reformas de controle do gasto público. Ponto positivo. Mas, sem manter a caminhada principal, rumo à moralização da política, perde-se o gás para maiores conquistas. E fica comprometido, nas suas raízes axiológicas e institucionais, o saneamento da economia. Porque a falta de claridade nas reformas políticas e o esvaziamento da Lava-Jato conduzem, de forma inequívoca, ao aumento da sensação de desconfiança, que comprometerá as políticas econômicas. 

Frisava a respeito, aliás, o economista Carlos Alberto Sardenberg: "Enquanto tiver ministros e líderes parlamentares mais preocupados em salvar a própria pele - ou o próprio apartamento - a expectativa em relação à condução da economia fica prejudicada" ("Em busca de outro Itamar", O Globo, 01/12/2016).

E, por falar em Itamar, como seria bom se Temer se aproximasse do finado ex-presidente que substituiu Collor após o impeachment. O problema é que o atual Presidente tem compromissos fisiológicos demais com um partido fisiológico demais... Já Itamar, o temperamental, ficou livre para escolher os seus colaboradores, sendo que, após vários acertos e erros, escolheu corretamente o seu Ministro da Fazenda, Fernando Henrique, tendo aberto assim a porta para o Plano Real que saneou, de forma duradoura, as nossas finanças públicas.

Como diria hoje Paulo Francis (magnificamente dublado pelo meu amigo Paulo Briguet na sua coluna na Folha de Londrina): "Saudades da Shirley"!

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

BIBLIÓFILOS: COM A CASA NAS COSTAS


Este escriba na sua biblioteca. (Juiz de Fora, 2010).

Sou bibliófilo. Desde a infância vivi entre livros. Ganhei deles uma alergia brava que se transformou em sinusite crônica com desdobramentos desagradáveis como a síndrome de Meunier... O amor pelos livros foi-me ensinado pelo meu pai, Don Alfonso, um espírito quixotesco que misturava conservadorismo, paixão libertária, catolicismo antioqueño, horror ao clericalismo, fé na iniciativa privada, desconfiança em face de milicos e advogados e uma enorme curiosidade intelectual de autodidata (embora tivesse se formado como professor primário e sempre tivesse desejado ser engenheiro, tendo seguido cursos por correspondência nas Escolas Internacionais que, desde os Estados Unidos, ofereciam formação de técnico em construções civis).

O traço existencial que mais se destacava no meu pai era o amor aos livros. Além, claro, da dedicação à família.Tinha organizado uma pequena biblioteca em casa, cujo traço marcante era a preocupação humanística. Ali, nas férias escolares, quando crianças, eu e meus irmãos encontrávamos pequenas coleções de livros infantis. Lembro-me da série espanhola denominada "Cuentos de Calleja", belamente editada com desenhos atraentes e com uma narrativa adaptada ao público infantil. Nessa coleção apareciam os clássicos para crianças.

Este escriba na sua biblioteca. (Juiz de Fora, 2009).

Mais adiante, na adolescência e ao longo dos estudos secundários, li na eclética biblioteca paterna obras como Dom Quixote de la Mancha e Novelas Exemplares de Cervantes, o Tratado da Pintura de Leonardo da Vinci, as Obras Completas de Francisco de Quevedo y Villegas (cujos poemas picantes o meu pai recitava de cor), O Paraíso Perdido de Milton, A Terra de Émile Zola, A civilização da Renascença na Itália de Jacob Burkhardt, a Divina Comédia de Dante, O Livro do Bom Amor de Juan Ruiz, Arcipreste de Hita, A Ilíada e A Odisséia de Homero, A Eneida de Virgílio, As vidas dos Doze Césares, de Suetônio, os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, O Castelo interior ou As Moradas de Santa Teresa de Avila, Idola Fori de Carlos Arturo Torres, as Obras Poéticas de São João da Cruz, Caminhos de Guerra e Conspiração, do meu avô materno, o general Amadeo Rodríguez, As Mil e uma noites, Por que sou conservador? de Carlos Eugênio Restrepo, Historia de uma alma (na verdade, duas obras diferentes com o mesmo título. Uma, a conhecida autobiografia de Santa Teresinha de Lisieux e outra, as memórias do político colombiano José Maria Samper), Mein Kampf de Adolph Hitler (na edição alemã, da qual mal conseguia soletrar o título absolutamente incompreensível para mim). Chamavam-me a atenção, nesta obra,  os caracteres góticos, que me faziam pensar numa complicada trama de agentes misteriosos e chatos... Li, também, O diabo de Giovanni Papini, O chapéu de tres picos de Pedro Antonio de Alarcón, Viagem a Pé do pensador nietzschiano Fernando González Ochoa, O homem medíocre de José Ingenierosbem como os romances de Julio Verne (Cinco semanas em balão, A volta ao mundo em oitenta dias, Miguel Strogoff, As tribulações de um chinês na China, As índias negras, Viagem ao centro da Terra, Os filhos do capitão Grant), os Dramas de Shakespeare, etc.. 

Na biblioteca paterna tive oportunidade de apreciar as belas edições espanholas dos quadros de pintores famosos como Velásquez, Goya, Fra Angêlico, Rafael Sanzio de Urbino, Miguel Angelo Buonarruti, Bartolomé Esteban Murillo, El Greco, Rubens, Caravaggio, etc. O meu pai colecionava, no seu escritório e na sala de visitas, quadros da Escola Quiteña, com algumas obras de Gregorio Vásquez Arce y Ceballos e seus discípulos. Na velhice, com os dedos castigados pela artrite, o meu pai fazia belas molduras florentinas para réplicas de quadros clássicos, ajudado na parte técnica pela minha irmã Maria Isabel, que tinha feito o curso de Artes e Decoração em Medellín.


O gosto pela pintura era compartilhado por meu pai com Arturo Pizano, um rico e ilustrado amigo, dono da empresa Triplex Pizano em que trabalhara durante alguns anos, como gerente, em Bogotá. O meu pai, aliás, pintou algumas telas de qualidade bastante apurada, que seguiam o estilo de inspiração naturalista em paisagens andinas. Conservo no meu escritório um pequeno óleo, em madeira, que reproduz uma parte de Fazenda El Carmen, em La Calera. Além do gosto pelas artes plásticas, o meu pai valorizava a música clássica. Havia, na biblioteca, coleções em discos de vinil (78 revoluções inicialmente e, depois os famosos "Long Play") com as obras de Mozart, Beethoven, Haydin, Bach, Mahler, Sibelius, Albeniz, Tchaikovski, Smetana... A minha irmã, Maria Victoria, falecida prematuramente na casa dos trinta e poucos anos, enveredou pelos estudos de piano sob a influência do meu pai, tendo chegado a ser pianista de renome internacional. Quando completou um ano de idade, Don Alfonso deu de presente a ela aquele belo piano Büchner que nos acompanhou pela infância e adolescência afora.

Don Alfonso cultivava também o bel canto. Tomava aulas com o professor italiano Matias Morro. Eu e os meus irmãos gostávamos de acompanhá-lo nessas aulas e ríamos muito quando o casmurro professor lhe passava carraspanas, ao se desafinar na execução de árias ou nos corriqueiros exercícios de aquecimento da voz. A sua voz era bela, de tenor, e diziam os entendidos que se assemelhava à do cantor espanhol Alfredo Krause. Anos mais tarde, já morando em Juiz de Fora, decidi tomar aulas de canto por conselho de um amigo médico que cantava em festas. As aulas de canto melhoraram muito a minha capacidade de dicção e serviram para evitar os problemas de voz que corriqueiramente afetam aos professores. Afinal, nós e os camelôs exigimos muito das nossas cordas vocais. Não cheguei ao desempenho do meu pai no bel canto. Em companhia da minha professora, Débora e com alguns colegas de aventuras musicais, dentre os quais o jovem e saudoso amigo,  já falecido, o pianista Eduardo Tagliati, apresentei-me, uma noite de 1999, no bar "Sobre as Ondas" que ficava na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas. Tive a grata surpresa de ver, na platéia, em primeira fila, o apresentador e humorista Miele. E me atrevi a gravar, em 2007, um CD intitulado: "Paixão Latina", com canções colombianas, algumas francesas como "La vie en rose" de Edith Piaf e várias do compositor cubano Ernesto Lecuona, detre as quais "Siboney" e "Maria La O". Tive muitas satisfações ao compartilhar esse CD com os meus alunos e com familiares e amigos.

Ao longo do anos tenho carregado "nas costas" a minha biblioteca. O maior desafio foi traze-la da Colômbia, quando vim fixar residência no Brasil no início de 1979. A embrulhei cuidadosamente em vários pacotes protegidos por papelão e plástico. E chegou, de navio, miraculosamente intacta, salvo alguns pacotes que sofreram intempéries. O segundo desafio tem sido acomodá-la nos restritos espaços de apartamentos, no Rio de Janeiro, em Juiz de Fora e, agora, nos últimos anos, em Londrina.

O acervo chegou perto dos 20 mil volumes, quando para conservá-lo dispunha de um apartamento inteiro em Juiz de Fora. A Biblioteca estava dividida nos seguintes temas: 1 - Pensamento Brasileiro; 2 - Pensamento Colombiano; 3 - Pensamento Português; 4 - Pensamento Espanhol; 5 - Pensamento Hispano-Americano; 6 - Sociologia e Ciência Política; 7 - BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, Africa do Sul); 8 -  Filosofia Grega; 9 -  Filosofia Medieval; 10 - Filosofia Moderna e Contemporânea; 11 -  História da Ciência e Cosmologia; 12 - Teologia e Espiritualidade; 13 - Liberalismo: obras de John Locke, Stuart Mill, Federalistas Americanos, Alexis de Tocqueville, François Guizot, Madame de Staël, Henri-Benjamin Constant de Rebecque; 13 - Arquitetura e Urbanismo de Paris: Edição fac-similar do Plano Turgot (1739) e obras de História do Urbanismo Francês e da Cidade de Paris; 14 - Literatura Espanhola; 15 - Literatura Francesa; 16 - Literatura Colombiana; 17 - Literatura Latino-americana e Caribenha.

A partir da minha vinda para Londrina em 2013, diminuí drasticamente o acervo, tendo ficado, hoje, com aproximadamente 3.500 volumes. A maior parte as obras foi doada para bibliotecas de entidades culturais, notadamente o Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora e a pequena biblioteca Sílvio Romero que organizei, para os meus alunos, no Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos da Universidade Federal de Juiz de Fora. 

Nessas duas bibliotecas deixei numerosas obras de história das ideias da Espanha, de Portugal e da América Latina, bem como algumas publicações periódicas, como por exemplo, a famosa Revista de Índias, que foi publicada pelo Ministério de Educação da Colômbia ao longo dos anos 30 e 40 do século passado, bem como a coleção da revista Carta Mensal publicada pela Confederação Nacional do Comércio no Rio de Janeiro e a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (publicada no Rio). Doei ao Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora uma belíssima coleção (130 volumes) sobre Historia do Liberalismo Colombiano no século XIX, editada pela Presidência da República da Colômbia e que me foi enviada pelo saudoso amigo e historiador Otto Morales Benítez. Uma coleção ímpar pela seriedade crítica e, do ângulo da universidade brasileira, importante como obra de referência da história das ideias políticas no mundo hispano-americano. O meu propósito era doar essa coleção à Biblioteca Central da Universidade Federal de Juiz de Fora, onde funciona uma sala dedicada à cultura latino-americana, a fim de que se beneficiassem os alunos da pós-graduação em estudos latino-americanos.

Até hoje não entendi a pergunta feita pela diretora (petista, para variar) da mencionada Biblioteca: "esses livros, professor, em que ano foram publicados?". Respondi que a coleção tinha sido editada entre 1990 e 1997. Resposta: "Não interessam essas obras à Biblioteca, pois somente recebemos livros publicados depois do ano 2.000". Achei no mínimo estranha a resposta. Diante da minha insistência, ela me esclareceu: "É que até o ano 2.000 todas as publicações encontram-se disponíveis na internet!". Gostaria de desafiar essa senhora para que me mostrasse sequer uma obra da mencionada coleção disponível na internet.... Haja burrice digital!

Este escriba lançando mais um livro em Londrina, junto com Pedrinho, em Outubro de 2015.

E assim vai passando a vida, o meu filhinho Pedro brincando com os meus livros, imaginando bibliotecas para os seus "Lelas" (os inseparáveis ursinhos de pelúcia), a minha esposa Paula cuidadosa para que não deixe acumular poeira nas pesadas estantes e eu, folhando diariamente, ao acaso, algum livro que esqueci na prateleira há anos, ou buscando avidamente aqueles que são necessários para a próxima aula ou que me ampliam o universo de dados para um artigo em que estou embrenhado...


domingo, 27 de novembro de 2016

FIDEL CASTRO RUZ (1926-2016) E O QUADRO DO PATRIMONIALISMO LATINO-AMERICANO



Morreu o mais velho ditador das Américas. Ficou 47 anos no topo do poder. Os ditadores latino-americanos nada devem aos de outras latitudes, em termos de longevidade política. Castro vem se somar à turma dos ditadores que o Nobel colombiano García Márquez imortalizou em O outono do patriarca (1975), não pelo bem que fizeram mas pelas crueldades que praticaram para dominar os seus povos por longos anos. Fidel permaneceu quase meio século na cúpula do Estado cubano e,  ao sair, continuou fiel ao modelo de patrimonialismo original: foi sucedido pelo seu irmão.

O traço mais marcante das organizações políticas latino-americanas tem sido o Patrimonialismo, a gestão da coisa pública como patrimônio familiar. Esse caráter familístico vingou desde as origens ibéricas até a contemporaneidade, embalado, por exemplo, por essa contradança maluca de entra ministro e sai ministro do governo Temer, no nosso combalido Brasil, ou pelo mambo cubano de "Sai Fidel, entra Castro" que marcou a transição familística do poder na ilha caribenha, ou pelo tango de "Um passo para frente e dois para trás" do peronismo do casal Kirchner na Argentina, que privatizou o Estado em benefício da elite familiar e sindical, de acordo às melhores praxes peronistas. Tudo no contexto cultural de encarar a política como extensão dos interesses familísticos, tanto entre os nossos vizinhos argentinos, quanto no Brasil, na Bolívia e alhures (vide, no nosso caso, o recentíssimo evento de patrimonialismo imobiliário de Geddel Vieira Lima).

A literatura acompanha de perto a longevidade dos regimes patrimonialistas da América Latina. A ditadura de Juan Manuel de Rosas na Argentina (que durou 17 anos, até meados do século 19) foi ilustrada por Domingo Faustino Sarmiento no seu clássico: Facundo - Civilização e barbárie no pampa argentino (1846). O ciclo da "ditadura científica" de Gaspar Rodríguez de Francia (que governou com o pomposo título de "Dictador Perpetuo de la República del Paraguai"), se estendeu por longos 24 anos entre 1816 e 1840, tendo sido romanceado por Augusto Roa Bastos em Yo el Supremo (1974). A tentativa frustrada do Libertador Simón Bolívar de instaurar uma ditadura de corte rousoniano e bonapartista nos cinco países andinos por ele libertados, ao longo da segunda década do século 19, foi belamente narrada por Gabriel García Márquez no seu romance intitulado: O general no seu labirinto (1989). A aventura da "ditadura científica" do general Porfirio Díaz no México, no chamado "porfiriato", durou 30 anos, tendo terminado em 1911. O Nobel de Literatura Octavio Paz romanceou esse regime no seu clássico livro intitulado: O ogro filantrópico (1979). A ditadura castilhista, no Rio Grande do Sul, que durou 39 anos (entre 1891 e 1930) foi, nos seus primórdios, retratada de forma crítica pelo poemeto campestre Antônio Chimango (1915) de Ramiro Barcellos. A subsequente ditadura getuliana, nitidamente de inspiração castilhista, que durou 15 anos (entre 1930 e 1945) foi retratada por Érico Veríssimo no terceiro volume de O Tempo e o Vento, intitulado: O Arquipélago (1961). 

O ciclo militar que, no Brasil, constituiu, ao longo dos seus 21 anos de funcionamento, uma modalidade de patrimonialismo estamental modernizador, foi objeto de numerosos relatos jornalísticos, historiográficos e literários, dentre os quais se pode mencionar, do ângulo da historiografia, o conjunto de 5 obras do jornalista Elio Gaspari, intitulado: A Ditadura (2002-2016). Do ponto de vista oficial, o melhor documento que explica a política autoritária e modernizadora dos militares foi, a meu ver, a obra do general Golbery do Couto e Silva, Conjuntura política nacional - O Poder Executivo e geopolítica do Brasil (1981). 

O Nobel de Literatura Miguel Angel Asturias, escreveu O Senhor Presidente (1946), inspirado no regime autocrático de Manuel  Estrada Cabrera, que governou com mão de ferro a Guatemala como se fosse a sua fazenda durante 22 anos, entre 1898 e 1920. O Nobel de Literatura Mário Vargas Llosa retratou, por sua vez, com cores vivas, a sanguinolenta ditadura exercida durante 31 anos (1930-1961) por Rafael Leonidas Trujillo na República Dominicana, na novela intitulada: A festa do bode (2000). Narrativas jornalísticas de qualidade ilustraram as ditaduras castrista (A Ilha do Doutor Castro, a transição confiscada de Corine Curmelato e Denis Rousseau, 2001) e chavista (A Revolução Sentimental, viagem jornalística pela Venezuela de Chávez de Beatriz Lecumberri, 2012). Mencionemos, para finalizar esta incompleta enumeração, o clássico de García Márquez, O outono do patriarca, cuja inspiração imediata foi motivada pela longa ditadura de Juan Vicente Gómez que durou 27 anos, entre 1908 e 1935, antecipando, na Venezuela, o longo ciclo da "Revolução Bolivariana" de Hugo Chávez, do qual ainda não se viu livre o país vizinho.

Do ângulo da história do pensamento político ocidental, encontramos dois modelos relativos à organização do Estado: idealista e realista. 

O primeiro, formulado por Platão na sua República, parte do pressuposto de que a organização política deve-se sedimentar na construção da unanimidade, a fim de garantir o reto funcionamento da Polis. A unanimidade ao redor do Rei Filósofo, com exclusão de qualquer dissidência, essa seria a condição para a fundação do Estado em bases firmes. Deste modelo aproximar-se iam três concepções que definiram em grau bastante forte a política moderna: o hobbesianismo, o rousseaunianismo e o marxismo-leninismo. Convenhamos que o modelo é idealista demais, se levarmos em consideração a natureza humana, dissidente por essência, em decorrência dos interesses individuais, altamente diferenciados. Ora, o castrismo - como de resto as demais formas de organização política que apontaram para a materialização do comunismo, no século 20 -, situa-se neste contexto, cuja nota característica é o alto custo social na sua implementação. Os 100 milhões de vítimas ensejadas pelo comunismo mundo afora, no século passado, são prova contundente disto. 

O líder falecido em dias passados inspirou-se inicialmente em Rousseau, com os seus comitês de defesa da revolução e a busca da unanimidade ao redor do Legislador, encarnado na figura do Fidel. Uma vez assumido o poder, Castro declarou-se comunista. Não precisou, aliás, mudar de ideologia: o marxismo-leninismo (com o princípio formulado por Lenine de que o ideal seria um governo não limitado por leis) é uma variante do pensamento de Rousseau. Convenhamos que a construção da unanimidade cubana saiu cara. Além dos mortos pelo regime (estimados pelos estudiosos em 100 mil), o funcionamento dos comitês de defesa da revolução do castrismo colocou metade dos cubanos vigiando a outra metade. Estima-se que, de onze milhões de habitantes, Cuba hoje está dividida em dois grandes grupos: os que policiam os cidadãos nos comitês de defesa da revolução e nos organismos estatais (que chegariam a 5 milhões) e os cidadãos, que seriam os restantes 6 milhões. Um regime estatista e caro demais. E que ensejou uma complicada e forte burocracia que se refestela sobre as privações do resto.

O segundo modelo que se estabeleceu na concepção do Estado no seio do pensamento ocidental foi o realista, tendo sido o seu primeiro formulador Aristóteles, com a  Política. Para o estagirita, o ser humano era, em essência, dialético, ou seja, diferenciado na procura de interesses materiais diversificados. O papel da política consistiria em, a partir da dissidência, ir construindo consensos. Desse modelo aproximar-se iam alguns pensadores modernos como John Locke, no século 17, e Montesquieu, bem como os Patriarcas Americanos no século 18. Silvestre Pinheiro Ferreira e Tocqueville, no século 19 e Raymond Aron, no século 20, foram representantes dessa tendência. Pensadores contemporâneos como Jürgen Habermas, com a sua teoria da ação comunicativa na construção de grandes consensos, situar-se-iam nesse contexto. Desse grupo fazem parte, hoje, a grande maioria dos pensadores liberais, conservadores e social-democratas. 

terça-feira, 22 de novembro de 2016

ESTADO RICO, POVO POBRE: A CONSEQUÊNCIA DIABÓLICA DO PATRIMONIALISMO

Rodin, "A Porta do Inferno" - Museu Rodin, Paris.

Disse o general Médici quando, como presidente da República, fez a sua primeira turnê pelo Nordeste: "Estado rico, povo pobre". Afirmação semelhante, cinquenta anos depois, foi feita pelo juiz federal Sérgio Moro, diante da quebradeira dos Estados que começa a ser revelada pelas investigações da Justiça e do Ministério Público: "Uma versão criminosa de governantes ricos e governados pobres". 

É a eterna ciranda do Patrimonialismo entre nós, que vai muito bem, enquanto os brasileiros cada vez mais perdemos as esperanças num futuro de progresso e bem-estar. O Patrimonialismo suga as nossas riquezas e enterra as esperanças dos nossos filhos e netos. O panorama anuncia-se cada vez mais sombrio. É o começo do inferno, naquela versão genialmente desenhada pela bela poesia de Dante Alighieri, no quatrocento, nas páginas da sua Divina Comédia. Satanás, narra o poeta, colocou na entrada do inferno o seguinte outdoor para saudar os visitantes que ficariam eternamente presos às gentilezas luciferinas: "Percam toda esperança". Rodin, o genial escultor, deixou gravada essa tragédia da perda da esperança na magnífica "Porta do Inferno", que é exposta no Museu d´Orsay em Paris.

Essa é, infelizmente, a perspectiva que nos espera, em face do reforço brutal que o Patrimonialismo, na área econômica, teve entre nós, acelerado nos treze anos de desmandos lulopetistas à frente da Coisa Pública. Nunca, como hoje, o Estado foi mais rico do que todos nós. Jamais os contribuintes trabalhamos tanto para cobrir as exigências gulosas do Leviatã. 

Os felás do Antigo Egito, aqueles camponeses pobres que deveriam trabalhar seis meses de graça para o Faraó, na indigna corveia  (que constituía uma forma de trabalho escravo de graça para o Estado), aproximam-se, hoje, da situação que vivemos os brasileiros, que já trabalhamos, por ano, cinco meses e um dia para satisfazer a fome do Leão da Receita. Estúpida perspectiva que torna minguada a nossa esperança. O regime tributário que o Estado Patrimonial nos impôs vai chegando à maligna propaganda anunciada no outdoor de Satanás no inferno de Dante: "Percam toda esperança".

Contribuição significativa no debate em torno ao inferno tributário que sofremos no Brasil, foi dada pelo jornal O Estado de São Paulo, na matéria intitulada: "O peso colossal dos tributos", de autoria do jornalista José Fucs (edição de domingo 20/11, na página A12, intitulada: "A reconstrução do Brasil - Impostos"). A respeito do castigo que a classe média sofre nas mãos dos cobradores de impostos, escreve Fucs:"Embora tenha uma carga tributária de Primeiro Mundo, o Brasil oferece serviços de Terceiro Mundo à população. Como o governo não entrega os serviços públicos que deveria entregar, em troca dos impostos pagos pela população, a classe média se vê obrigada a recorrer à iniciativa privada para ter um atendimento de melhor qualidade na saúde, uma escola que faça jus ao nome e até para garantir o seu patrimônio, com a contratação de uma empresa de segurança particular. Na Previdência Social não é diferente. Muita gente, que pagou a vida inteira a aposentadoria pelo teto, hoje recebe uma miséria (...). Para completar o quadro, o sistema tributário brasileiro é um cipoal de normas que onera as empresas e intimida os mortais. (...) O Brasil é o país em que as empresas perdem mais tempo para enfrentar a burocracia tributária no mundo. De acordo com o levantamento de 2016, são nada menos que 2.038 horas perdidas por ano só com isso. Na Venezuela, segunda colocada no ranking, são 792 horas por ano, menos da metade".

Um paciente advogado mineiro, Vinícius Leôncio, conta o jornalista Fucs, tomou-se o trabalho de reunir em livro a legislação tributária do Brasil. O resultado da pesquisa e da trabalheira foi impressionante: um mostrengo que pesa 6,2 toneladas, com um total de 43.216 páginas (cada uma do tamanho de 2,2 metros de altura e 1,40 metro de alto). As páginas, enfileiradas, cobririam uma distância de nada menos do que 95 km. A obra de Vinícius Leôncio credencia-se, assim, ao prêmio Guiness de tamanho da legislação tributária de um país! Não era para menos. O nosso país, segundo os cálculos dos entendidos, edita 35 normas tributárias por dia.

José Fucs entrevistou o economista Bernard Appy, diretor do Centro de Cidadania Fiscal (CCiF), uma organização que busca o aprimoramento do sistema tributário. Segundo Appy,  o software usado para pagar impostos no exterior pela matriz de uma empresa europeia de bens de consumo que funciona no Brasil, tem 50 linhas de programação. Já o programa utilizado só para o pagamento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) no Brasil tem 20 mil linhas de programação. O tributarista Ives Gandra, entrevistado por Fucs, afirma:"Em 1958, quando me formei, eu dava segurança para os meus clientes em questões tributárias. Hoje, com 59 anos de experiência, tendo escrito 84 livros, (eu digo que) é impossível descifrar o entendimento da Receita Federal".

O atual governo tenta elaborar uma política de revisão para a maluca política tributária vigente. Dado o tamanho do leviatã orçamentívoro, o esforço foi concentrado na racionalização dos tributos incidentes sobre o consumo nos três níveis de governo (o imposto sobre produtos industrializados - IPI, o imposto sobre circulação de mercadorias e serviços - ICMS, o imposto sobre serviços - ISS e as contribuições sociais como o programa de integração social - PIS e a contribuição para o financiamento da seguridade social - Cofins). 

O esforço da base aliada parlamentar será enorme, segundo confessa o deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), relator da Comissão Especial de Reforma Tributária da Câmara dos Deputados. Hauly propõe que seja criado um novo ICMS que unifique todos os tributos sobre consumo, sem alterar as atuais fatias apropriadas pelos entes da Federação. O trabalho será árduo, dados os interesses em conflito e a mentalidade orçamentívora dos agentes oficiais. Se na simples apresentação da PEC 241 sobre teto de gastos para o setor público houve toda a gritaria que conhecemos, o balbúrdia não será menor quando se trate de revisar a política tributária que alimenta os barnabés de todos os níveis. 

O melhor, a meu ver, talvez seria que os cidadãos começassem a foçar, no seu município, as políticas tributárias existentes, bem como os órgãos de cobrança e iniciassem por aí o trabalho de desfiar o novelo tributário, de baixo para cima, cobrando dos administradores municipais mais transparência no que tange à fixação de tributos. 

O que não pode continuar acontecendo é a ominosa altivez de funcionários públicos que fazem pouco dos interesses dos cidadãos, decretando greves abusivas (como a que inferniza, em portos e aeroportos, a exportação de produtos, lesando, assim, produtores nacionais e compradores estrangeiros que irão buscar fornecedores menos complicados no competitivo mercado global).

A corrida tributária só se acelerou na gestão das esquerdas no Brasil, ou seja, nos dois governos de Fernando Henrique e nos quatro consulados petralhas. Revise-se as estatísticas e se verá o crescimento enorme da tributação nesse longo período. A esquerda é mestre em arrecadar e gastar! 

Lembro-me do que, nos tempos áureos de estreia do Plano Real, o secretário da receita, Everardo Maciel, respondeu a uma contribuinte perplexa, que não entendia o cipoal legislativo parido pela Receita Federal: "A senhora não tem que compreender, a senhora tem que pagar"! 

Haja deboche com o contribuinte. Assim não vamos sair das portas do inferno!