DON QUIJOTE

Loading...

Pesquisar este blog

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

RIO DE JANEIRO: UMA GUERRA CONTRA A SOCIEDADE


"War in Rio" do designer Fábio López, indicando as facções em pugna na atual guerra carioca (publicado em http://extra.globo.com/rio/fotogaleria/2007/3799/)


Poucos se lembram da propaganda da vodca Orloff, que era exibida na TV, no decorrer dos anos 80 do século passado. Um sujeito, bem vestido e com cara de quem está com tudo encima, olha para o espelho antes de sair de farra e se enxerga com cara de anteontem: olheiras enormes, semblante lastimável. Pergunta à imagem do espelho quem é, e ela responde: “Eu sou você, amanhã”. Desde essa época afirmo, em palestras e aulas pelo Brasil afora, que a Colômbia é, hoje, o Brasil de amanhã. As cenas da guerra carioca que assistimos pela TV ao longo dos últimos quinze dias e que vimos estampadas nos jornais, já foram vistas, há vinte e tantos anos trás, nas ruas de Medellín e Bogotá. Era a guerra do narcotráfico nas cidades colombianas, que estudioso francês caracterizava como “uma guerra contra a sociedade”.

Ora, o que está acontecendo no Rio é exatamente isso: uma guerra contra a sociedade. De um dos lados está o banditismo dos narcotraficantes e milicianos, que mantém refém boa parcela da população. Esse banditismo, nos surtos habituais de violência que acompanham ao narcovarejo dos morros, afeta já a todos os cariocas. De outro lado está a polícia, que se bem tem oficiais, delegados, praças e funcionários do bem, ainda não foi depurada da banda podre, que deixa morrer na calçada, por exemplo, um cidadão, assaltado no centro da cidade, como aconteceu com o fundador de grupo Afroreggae. No meio desse tiroteio está a cada vez mais indefesa e apavorada massa dos cidadãos e dos turistas, que não são poupados nem por bandidos nem por maus policiais.

O drama que se vive no Rio é o que sofrem, hoje, com intensidade cada vez maior, as cidades brasileiras. O combustível que alimenta toda essa barbárie é um só: o narcotráfico. O Brasil não é apenas, hoje, rota de processamento e exportação de narcóticos. É também consumidor. A espiral da violência urbana não será desmontada enquanto não for removida a causa que a alimenta: o narcotráfico e o consumo de entorpecentes.

Como pano de fundo de toda essa barbárie, temos um Estado gerido, nas suas instâncias federal, estadual e municipal, com critérios clientelistas que configuram a cultura do patrimonialismo. É claro que há pontos de racionalidade administrativa. Mas convenhamos que, ao longo dos últimos anos, a coisa piorou bastante. Instalou-se, no país, uma forma mafiosa de gestão da coisa pública, exacerbando o princípio que já formava parte do folclore político: “aos amigos, os cargos; aos inimigos, a lei”. Figuras que pareciam pertencer apenas aos tratados de sociologia, como a do “juiz nosso” e a do “delegado nosso”, tão bem retratados por Oliveira Vianna, voltam à cena com magistrados concedendo discutíveis liminares, favoráveis a clãs familiares e contrárias à liberdade de imprensa. O populismo em ascensão não tem hoje limites e reivindica não ser fiscalizado por ninguém. Tribunais de contas e leis de responsabilidade fiscal, que sejam colocados à margem! O único que interessa é o PAC do líder carismático e a aprovação das massas nos palanques. Movimentos ditos sociais obtêm carta branca para se apropriarem de patrimônio público e privado, só porque são “sociais”, ou seja, dizem agir em nome dos despossuídos contra as odiadas elites.

Com essas premissas, um Estado gerido como bem de família para favorecer amigos e apaniguados e um mercado de tóxicos cada vez mais agressivo, iremos, certamente, assistir a mais cenas de violência dessa guerra contra a sociedade. É possível fazer alguma coisa? Sim, com certeza. Mas as soluções são prementes e difíceis. É necessário, antes de tudo, resgatar o princípio da preservação do bem comum, e não apenas o dos amigos ou do Partido, como norma das ações de governo. E partir para uma estratégia de cunho nacional, não apenas local.

Torna-se imperioso estruturar um sistema de segurança que garanta o controle do Estado em relação ao que entra pelas nossas fronteiras. Não há policiamento efetivo na enorme fronteira seca do nosso país com os vizinhos. Nem há controle sobre os contêineres que entram pelos portos. Nem vigilância suficiente sobre as cargas que entram pelos aeroportos. Diante desse sistema de vigilância falido, fica muito fácil aos traficantes adquirirem, no exterior, os sofisticados armamentos com que derrubam helicópteros policiais. O governo federal somente se mobiliza quando os interesses de popularidade do presidente podem ser afetados. Ora, a segurança no Rio fica distante do teflon presidencial e os repasses de verbas para que a polícia carioca possa funcionar não são simplesmente feitos. Isso é um crime de omissão, diante da gravidade da situação pela que passa a outrora “cidade maravilhosa”.

As prisões de segurança máxima são uma piada. Beira Mar e outros mega traficantes administram desde eles os seus negócios e ordenam os crimes praticados pelas suas gangues. Vários diretores de importantes presídios, especialmente cariocas, têm sido assassinados a mando dos chefões. Seria bom que as autoridades visitassem o presídio de Segurança Máxima de Cômbita, na Colômbia, para que observassem como funciona. Se o país vizinho pode, no Brasil não são feitas as coisas por simples desleixo.

A Copa do Mundo de 2014 está já agendada no Brasil, e as Olimpíadas de 2016 serão realizadas no Rio. Se o patriotismo não mobiliza aos atuais governantes, pelo menos que façam o dever de casa por simples conveniência. Vai pegar muito mal, na folha de todos eles, um Brasil mergulhado em sangue que não consegue cumprir com os seus compromissos.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

CRÔNICA BRACARENSE II – AS MULTIPLAS FACETAS DE BRACARA AUGUSTA E GUIMARÃES


Panorâmica da cidade de Guimarães, desde o Castelo


O autor desta crônica no Castelo de Guimarães.


Estátua de Afonso Henriques, fundador da Monarquia Portuguesa, em Guimarães


Guimarães: berço da nacionalidade portuguesa


Catedral de Braga: construída no século XI, é um belo exemplo do estilo românico português




Museu arqueológico Dom Diogo de Sousa, situado na parte alta de Braga: passado celta e romano belamente preservado


Parque arqueológico das Termas Romanas, na parte alta de Braga


Banhos romanos na parte alta de Braga: o "caldarium", entrada da piscina de águas quentes


Aviso indicativo das ruínas romanas da antiga Bracara Augusta



“Bracara Augusta”: foi este o nome dado pelos romanos à cidade de Braga, em 16 a. C., quando a fundaram em homenagem ao Imperador Augusto. Diocleciano a elevou ao rango de capital da província romana de Callaecia, que se estendia por todo o noroeste da Península Ibérica, abarcando a atual Galiza portuguesa, bem como a Galícia espanhola, e indo das margens agrestes do Rio Douro até as praias do Mar Cantábrico, no país basco, na Espanha. A Callaecia integrava as regiões (ou conventus juridici) de Braga, Astorga e Lugo. O distrito de Braga abrangia 24 cidades, sendo um dos principais centros administrativos dos Romanos na Península Ibérica.

A pré-história da região se perde no nevoeiro dos tempos. Ao longo das Idades do Bronze e do Ferro, foi habitada pelos Brácaros, tribo celta em cuja lembrança os Romanos cunharam o nome de Bracara, ou Braga. O Cristianismo chegou à região antes do ano 303, em plena Era Apostólica. Por esse tempo ocorreu a perseguição de Diocleciano, bem como o martírio de São Victor, originário de Braga.


Quando os Bárbaros invadiram o Império Romano no século V, os Suevos apoderaram-se da antiga Callaecia, convertendo Bracaria Augusta na capital do novo reino. Em 448 o rei dos Suevos, Réquila, convertia-se ao Cristianismo, 50 anos antes do batismo de Clóvis, rei dos Francos. Em 585, o reino dos Suevos foi conquistado pelos Visigodos. A partir de 716, com a invasão muçulmana, a cidade de Braga foi várias vezes arrasada. A lenta reconquista dos reinos cristãos da Península Ibérica, das mãos dos muçulmanos, começa com o reinado de Afonso III de Astúrias (866-910), mas somente a partir do século XI é que Braga volta, de forma definitiva, ao domínio dos cristãos. A bela Catedral da Sé, em estilo românico, data desse tempo.

A cidade de Braga, bem como a região que a circunda, incluindo Guimarães, é testemunha viva desse precioso passado. Não é à toa que um dos cursos que mais se destaca na Universidade do Minho, na sua sede bracarense, é o de arqueologia. Devemos lembrar, outrossim, que Braga possui um dos mais belos museus arqueológicos da Península Ibérica, o denominado “Dom Diogo de Sousa”, com coleções de objetos dos períodos do Paleolítico e da Idade do Ferro recolhidos na região do Minho, bem como com utensílios provenientes da velha cidade (Bracara Augusta), que revelam a integração dessa urbe ao Império Romano e destacam as tecnologias da época no trabalho do vidro e da cerâmica, por exemplo, ou aspectos da vida religiosa e familiar dos habitantes. Na parte inferior do museu encontra-se, excelentemente preservada, uma habitação da época romana, ornada com um mosaico, em estado de conservação tão perfeito quanto os espaços domésticos achados em Pompéia e Herculano. Além do Museu Arqueológico, a municipalidade de Braga abriu para visitação, na parte alta da cidade, as antigas Termas Romanas, com um magnífico trabalho de recuperação arqueológica que em breve possibilitará a abertura ao público de um Teatro, anexo às Termas. Subindo pela Avenida Liberdade, que corta o centro da cidade, o visitante pode observar, outrossim, os trabalhos de reconstrução de uma necrópole da época romana, bem ao lado de exclusivas lojas de moda e joalharias.

No que tange à história medieval, é evidente que Braga possui, também, monumentos de renome, como a já mencionada Sé, além de outras Igrejas. Mas o grande centro da memória medieval da região do Minho é a belíssima cidade de Guimarães, Patrimônio Cultural da Humanidade. O burgo encontra-se rodeado de monumentos pré-romanos (denominados de citânias ou castros) como Briteiros, Sabroso, Picoto de Santo Amaro, etc. constituídos por construções em pedra que se remontam à cultura celta. Guimarães foi fundada na Alta Idade Média, no século X, ao redor da primitiva fortaleza construída em 968. O Castelo de Guimarães teve grande importância na primeira etapa da história de Portugal, pois foi nele que se firmou o poder de Afonso Henriques sobre o Condado Portucalense, no exato momento em que ele foi aclamado “príncipe” pelos guerreiros de antigas famílias senhoriais, em 1128. As origens da Nação Portuguesa confundem-se com a história do Castelo de Guimarães, que foi o centro da primeira monarquia, instituída em 1139 por Afonso Henriques, na batalha de Ourique. Em 1179 o rei português recebia o reconhecimento da Santa Sé, após hábeis negociações que garantiram a independência definitiva em relação a Castela. Após longa época de abandono, durante os séculos XVI a XIX, o Castelo de Guimarães foi reconstruído nos tempos do Estado Novo, na década de 1930, sendo hoje uma magnífica jóia da arquitetura medieval, plenamente recuperada, ao lado do Palácio dos Duques de Bragança.

É flagrante a rivalidade existente entre Braga (180 mil habitantes, aproximadamente) e Guimarães (51 mil habitantes), do ponto de vista do significado de ambas as cidades para a história de Portugal. Se a primeira representa, a meu ver, o passado grandioso da cidade romana (Bracara Augusta), a segunda urbe, identificada com as origens medievais da Nação, pode ostentar, com justiça, a honraria de ser a Capital Histórica de Portugal. Do ponto de vista do visitante, Guimarães é uma jóia arquitetônica bem representativa do que é um autêntico burgo medieval, ao passo que a velha Braga sintetiza, de forma harmoniosa, todas as fases históricas da região do Minho, desde as suas origens pré-romanas, passando pela capital imperial da Callaecia e do reino dos Suevos, até se projetar para os tempos modernos, como centro comercial e universitário.

Do ângulo da história portuguesa contemporânea, Braga e Guimarães, bem como a cidade do Porto, vizinha delas, constituem as fontes do pensamento libertário e das políticas democráticas inspiradas nesse espírito. Foi do Norte de onde surgiram as forças liberais e democráticas que venceram aos comunistas, que tinham tomado posse do Estado Português após a “Revolução dos Cravos”, em meados dos anos 70. Essa onda liberal-democrática partiu para refundar as instituições republicanas num contexto de defesa das liberdades, do mercado e da abertura à Europa. Processo que, hoje, felizmente, está consolidado e garante a plena inserção do velho Portugal na modernidade.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

CRÔNICA BRACARENSE - PORTUGAL MODERNO E O BATACLÃ DAS MENINAS


A bela Praça da República, no centro de Braga


Este cronista flanando no centro de Braga. À direita, outdoor da recente campanha para as eleições municipais


Banhos romanos recentemente descobertos na parte alta de Braga - A cidade é importante centro de estudos arqueológicos


Damas bracarenses conversam animadamente no fim de tarde na cafeteria A Brasileira - Elas parecem não temer mais "O bataclã das meninas"


Planejamento municipal moderno ampliou, em Braga, as áreas de lazer - Aspecto da Av. Liberdade


Braga: políticas eficientes para preservação do rico passado medieval


Tenda do Conhecimento no centro de Braga: Portugal aposta nas novas tecnologias da informação



O título do meu comentário é meio medieval. Tiremos o meio: é medieval mesmo. É que esta bela cidade, Braga, da metade do tamanho de Juiz de Fora (perto de 200 mil habitantes, aproximadamente), tem tudo a ver com a Idade Média. Desde a imponente Sé (do século XI), passando pela antiqüíssima Faculdade de Filosofia (incorporada hoje à Universidade Católica Portuguesa), até as ruelas e prédios da cidade velha, tudo respira séculos de história. Isso sem falar da remotíssima história pre-romana e romana de Bracara Augusta, capital da Província de Callaecia, que abrangia o norte da Península Ibérica, entre o Mar Cantábrico e a atual Galícia.

Visito regularmente Portugal desde os remotos idos de 1986, quando, pela primeira vez, vim em companhia do saudoso amigo e colega da Universidade Gama Filho e da UERJ, Ítalo Jóia, para participarmos de evento promovido pelo também saudoso Eduardo Abranches de Soveral, ao ensejo do primeiro curso de pós-graduação em Pensamento Português, organizado por ele na Universidade do Porto. O caro Mestre Soveral queria estimular os seus alunos a debaterem temas ligados ao diálogo entre as Filosofias Portuguesa e Brasileira. Esse esforço, empreendido também por Antônio Paim, Antônio Braz Teixeira e José Esteves Pereira, deu ensejo aos Colóquios Luso-Brasileiros de Filosofia, cuja 8ª edição teve lugar recentemente em São João Del Rei, sob a coordenação de José Maurício de Carvalho.

O interessante de Braga é que a tradicional cidade constitui um paradigma do que é, hoje, Portugal, no meio da Europa unificada. É um país que descobre a sua tarefa no mundo globalizado, dando relevo à tecnologia da informação e às aplicações da mesma em setores muito concretos como os softwares para a indústria aeronáutica (Portugal está fechando um contrato, com essa finalidade, com o Massachussets Institute of Tecnology – MIT). Também são contempladas aplicações da informática para a gestão do conhecimento. Ora, essas variáveis permitem a este pequeno país passar a competir, com qualidade, ao lado de potências mais extensas e com economias altamente industrializadas como a Espanha, França, Inglaterra ou Alemanha. Nesse esforço de modernização estão comprometidas Universidades como a do Minho, com sede em Braga, e a tradicional Universidade Católica Portuguesa (com campi em Braga, Porto e Lisboa). A proverbial disciplina dos scholars portugueses está a mostrar que é possível abrir a vida acadêmica às exigências tecnológicas da atualidade, sem sacrificar os estudos humanísticos nem o bom nível das pesquisas e do ensino. Portugal está evoluindo rapidamente para se transformar, como a Irlanda, em reconhecido centro de alta tecnologia da informação. As Universidades brasileiras terão muito a ganhar se souberem explorar este novo terreno de cooperação acadêmica.

Chama-me a atenção, em Portugal, a vitalidade da gestão municipal. Neste final de semana houve processo eleitoral para renovar as Câmaras de Vereadores, em todo o país. Conversando com professores da Universidade e com pessoas comuns, vejo que há um movimento conservador no critério de renovação das Câmaras Municipais. É claro que nas recentes eleições houve mudanças significativas, como em Lisboa, onde o eleitorado deu espaço aos socialistas na organização da Câmara Municipal. Mas o que se observa no país, em geral, é que os cidadãos conferem um voto de confiança ao partido que está fazendo gestão responsável dos serviços municipais. Em Braga, por exemplo, governam os socialistas de tendência mais conservadora há várias décadas. Em Évora, para dar outro exemplo, desta vez no sul do país, era proverbial a qualidade da gestão municipal efetivada pelos comunistas, na década passada. A vida municipal é pujante em Portugal e aí reside o segredo da sua democracia. Afinal, como diz o ditado popular, “as pessoas moram no município”. E é aí que deve começar a vida democrática. Lembro Tocqueville que dizia ser o Município a escola primária da Democracia.

No Brasil, pelo contrário, temos centralização demais e vida municipal de menos. Os sucessivos governos – e o petista foi o que mais exagerou na dose – tornaram os Municípios reféns da União. É vergonhoso ver como os Prefeitos, humilhados, têm de ir em romaria a Brasília para mendigar o Fundo de Participação dos Municípios, que o Governo Federal distribui a conta-gotas e com critérios clientelísticos. Nova lição que nós, Brasileiros, devemos aprender dos Portugueses. A nossa sociedade seria infinitamente mais justa, se os Municípios pudessem contar com os recursos que arrecadam. E se aqueles Municípios que não conseguem se sustentar com os próprios recursos passassem a integrar outras unidades municipais. Exagerou-se, no Brasil, na dose de criação de Municípios, sem que muitos deles tivessem a capacidade mínima para sustentar as suas Câmaras Municipais e gerir os seus próprios recursos. Daí a dependência do favor da União.

Uma breve anedota que me foi contada por um professor universitário português. Há vários anos, as damas tradicionais da sociedade bracarense oficiaram ao Prefeito da cidade, a fim de que tomasse medidas contra as casas de prostituição. Tinha acontecido o seguinte: jovens brasileiras organizaram, no município, o “Bataclã das Meninas”, com tremendo sucesso. Também pudera! Os maridos encontravam em casa, ao regressar, no final do expediente, esposas vestidas de preto e com o tradicional “buço”. Não poucos deles corriam ao famoso “Bataclã”, onde encontravam jovens jeitosas. Resposta do Prefeito às senhoras bracarenses: “não posso derrubar, com portarias municipais, as leis do mercado”. Bom, a estória, certa ou não, revela, de todas as formas, as mudanças sociais que este país passou a experimentar com o ingresso na Comunidade Européia. Portugal não foi engolido pelos vizinhos mais poderosos, como muitos temiam. Encontrou o seu nicho de mercado, numa Europa cada vez mais agressiva em termos comerciais. E as relações sociais mudaram no sentido de as pessoas descobrirem as coisas boas da vida, como a liberdade individual e a alegria do lazer, abandonando ranços tradicionalistas. Acho que a estória do “Bataclã das Meninas” tem muito de pilhéria. Vi, hoje de tarde, na Cafeteria “A Brasileira”, na exclusiva Rua de São Marcos, no centro nobre da cidade, conversando animadamente e tomando cerveja, a um grupo das outrora damas tradicionais da sociedade bracarense. Elegantes, bonitas, sem nada que lembrasse as donas de casa vestidas de preto e com buço. Portugal mudou e para melhor. Viva a modernidade!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

RIO DE JANEIRO Y EL BRASIL EN EL ESCENARIO DE LAS OLIMPÍADAS DEL 2016


Rio de Janeiro: "Cidade Maravilhosa" o "Cidade Perigosa"? - Todo depende de la responsabilidad de los gobiernos local, regional y federal



Este bloguero en la terraza del Instituto Histórico y Geográfico Brasileño, en Rio, durante la semana França-Brasil, Junio de 2009


Sin lugar a dudas que fué un triunfo para las autoridades deportivas y para los gestores públicos, el hecho de que la ciudad de Rio de Janeiro haya sido escogida como sede de las Olimpíadas de 2016. Este triunfo comenzó a ser preparado en los años noventa del siglo pasado, cuando dirigentes deportivos y municipales se empeñaron en seguir los consejos del directivo del COI, Juan Antonio Samaranch, acerca de lo que la ciudad de Rio debería hacer para ser contemplada con una Olimpíada. El alto dirigente deportivo español aconsejó que Rio pleiteara primero ser sede de los Juegos Panamericanos del 2007. A la cabeza de la iniciativa del Municipio de Rio de Janeiro estaba el Prefecto César Maia, que terminó siendo el gestor principal del PAN de 2007, evento que se revistió de indudable éxito.

Si por un lado es positiva la escogencia de Rio como sede de las Olimpíadas del 2016, por otro lado no deja de ser preocupante el enorme reto al que dirigentes deportivos y políticos tendrán que hacer frente, para que el magno evento no se convierta en un fiasco. Pensando en voz alta, quisiera destacar lo que me parece fundamental para ser realizado en el período de seis años que separan la fecha de hoy de las Olimpíadas del 2016.

En primer lugar, a mi modo de ver, debe ser solucionado el problema de la seguridad pública. Rio de Janeiro tiene hoy 1.200 favelas, la mayor parte de ellas controladas por narcotraficantes o por paramilitares. Sólo en unas pocas, que se pueden contar en los dedos de la mano (cuatro a lo sumo), el Estado ha entrado para quedarse y garantizarles a los ciudadanos seguridad y tranquilidad. En las 1.196 favelas restantes impera el crimen organizado. Haciendo un cronograma apretado, las autoridades deberían reconquistar para la ciudadanía aproximadamente 200 favelas por año, a fin de que, en 2016, sea efectivamente el Estado el que mande en esas comunidades y no los traficantes o los paramilitares (que en Rio son llamados de “milicianos”).

Los noticiarios informaban ayer que el gobierno federal tiene planeado ocupar, hasta fines del 2010, 45 favelas. Con ese ritmo, en 2016 las fuerzas del Estado controlarían apenas 270 comunidades, faltando, por lo tanto, más de 900 favelas para que en ellas impere la ley y no la selva. Un desafío tremendo! Hoy en día, según cálculos de estudiosos cariocas, casi dos millones de personas viven en Rio sometidos a la voluntad de traficantes y paramilitares. Serán capaces las autoridades brasileñas de responder a la altura a ese desafío y rescatar de la “narcodictadura” a tantos brasileños? Hay un problema organizacional en relación con la seguridad: es necesario acabar rápido, de una vez por todas, con la denominada “banda podrida” de la policía carioca, que infesta a casi la mitad del organismo policial, tanto civil cuanto militar. Si en Bogotá fué posible depurar a la policía, en las famosas reformas de los años noventa, lo mismo podría hacerse en Rio de Janeiro. Los gobernantes cariocas podrían pedirle una asesoría, por ejemplo, al general Rosso José Serrano, el hombre que limpió la estructura de la policía colombiana, especialmente en la capital. Y podrían llevar en consideración el trabajo de pacificación realizado, en Bogotá y Medellín, por los alcaldes Antanas Mockus, Enrique Peñalosa y Sergio Fajardo, a lo largo de los últimos diez años, que dejaron un saldo expresivo de disminución acelerada de la criminalidad.

En segundo lugar, debe dársele solución al problema del transporte masivo urbano. La cuestión básica es modernizar el sistema de trenes, que van del centro de la ciudad a las zonas norte y oeste y a la denominada “Baixada Fluminense”, un conglomerado de municipios que son las ciudades-dormitorios de Rio de Janeiro (Nilópolis, Caxias, Queimados, Xerém, etc.). El transporte para estas ciudades es de pésima calidad, tanto el de trenes, como el de buses. Las inversiones en estos medios de transporte, especialmente el de trenes, han sido siempre parcas. Los historiadores cuentan que, a comienzos de la República, hubo una partida presupuestal grande para dotar a estas regiones de transporte ferroviario digno. El dinero fué desviado y aplicado en obras suntuarias en la parte aristocrática de la ciudad, la Zona Sur, como sucede aún hoy en día. Y es que los políticos cariocas viven en las exclusivas regiones de Ipanema, Leblon, Copacabana y Barra da Tijuca, en donde se concentran las grandes inversiones. Es lógico que ninguno de ellos quiera hacer obras en las zonas deprimidas de la ciudad, que son recorridas únicamente en períodos de consecha electoral, para buscar los votos de los más humildes.

En tercer lugar, debe ser solucionado el problema hotelero, a fin de dotar a la ciudad de una base cómoda para alojar a los miles de turistas que vendrán con motivo de las Olimpíadas. Rio posee hoy una red hotelera con 22 mil lechos. Hay un déficit de 18 mil, para garantizar el mínimo de 40 mil lechos. Se tratara de una inversión de gran porte, que llevará practicamente a una duplicación de la capacidad hotelera.

En cuarto lugar, se hace necesario que el sistema público de salud funcione de forma adecuada. Hoy en día, con la centralización del denominado “Sistema Unificado de Saúde”, la capacidad de hospitales y puestos de salud para atender a la población se ha reducido dramáticamente. Es necesario revisar la errada política excesivamente centralizadora de la gestión en materia de salud pública por parte de la Unión, que ha conducido al actual callejón sin salida.

Frente a todos estos retos, debemos preguntarnos si los gobiernos federal, estadual y municipal están hoy en día a la altura para gerenciar las múltiples obras que se harán necesarias. Por lo que se ha visto de descalabro administrativo en las dos administraciones de Lula da Silva, así como en las gestiones de Sergio Cabral (Estado de Rio de Janeiro) y de Eduardo Paes (Municipio), deberá haber un gran esfuerzo de racionalidad administrativa y de saneamiento de la gestión de recursos, para que el presupuesto calculado para las Olimpíadas de 25 mil millones de Reales (14 y medio billones de dólares) no se torne una pesadilla para el contribuyente brasileño. Hay malos indicios en los esfuerzos que Lula está haciendo para que el Tribunal de Cuentas de la Unión no fiscalece con rigor los gastos de los Juegos Olímpicos. Después del “mensalão” y del torrente de robos al dinero público cometidos por los petistas en el poder, no es buen augurio esta tentativa de aliviar la fiscalización que Lula propone. La opinión pública brasileña deberá estar con las pilas puestas para que no le salga demasiado cara la cuenta de las Olimpíadas del 2016.