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sábado, 23 de novembro de 2013

MOVIMENTOS SOCIAIS, CADE, MINISTÉRIO DA JUSTIÇA E PESCARIA EM ÁGUAS TURVAS





Li no Estadão de 31 de Outubro dois artigos, um de Dora Kramer, intitulado: “É assim que começa” e outro, na página de opinião, de Eugênio Bucci, intitulado: “Uma aliança crimino-estudanti?” Ambos os artigos versam sobre os violentos eventos que fecharam estradas federais nas vizinhanças de São Paulo, comandados por criminosos mascarados. Desde Junho, aliás, esses elementos vêm aterrorizando a população ao ensejo dos massivos movimentos de ruas protagonizados por jovens da classe média. Os “black blocs” caboclos conseguiram, segundo os analistas citados, esvaziar as legítimas manifestações multitudinárias.


Para Dora Kramer, repete-se, nos dias de hoje, a política populista que Brizola aplicou ao Estado do Rio de Janeiro quando eleito governador, em 1983. A fim de angariar os votos dos setores populares, Brizola prometeu que, se eleito, a polícia não subiria aos morros. Cumpriu a promessa e as favelas tornaram-se redutos do crime organizado, que passou a importar armas pesadas. Os antigos “malandros” tornaram-se profissionais do crime e passaram a peitar a polícia com armamentos modernos. Deu-se, assim, no Rio, o agravamento da violência, com as cenas de guerra que os cariocas conhecem sobejamente. Para Dora Kramer, mais do que uma questão corriqueira de ordem pública, a atual situação é grave: estão em jogo as instituições democráticas. Isso em virtude do crescimento desmedido da violência dos ativistas nas manifestações, com infiltração do crime organizado e, por outro lado, em face da indefinição dos governos, tanto federal quanto estaduais, diante de uma situação de violência generalizada que atemoriza, com razão aos cidadãos. Conclui a jornalista a sua análise com as seguintes palavras: “Para além de declarações formais, de reuniões e de intenções de agir conjuntamente, conviria aos governos federal e estaduais prestarem a devida atenção aos primeiros acordes e reconhecer a sinfonia. Está em jogo o Estado de Direito. E isso requer mais que a análise do diagnóstico proposta pelo secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, para quem não se pode criminalizar as manifestações sociais”.


Para o jornalista e professor Eugênio Bucci, a atual situação enquadra-se num marco bem maior, que diz relação a três movimentos revolucionários: o da aliança de camponeses e operários, ao ensejo do levante bolchevique na Rússia em 1917, o da aproximação entre estudantes e operários em 1968, nas jornadas parisienses que passaram à história como “Maio de 68” e o da aliança entre movimento juvenil e criminalidade, que estaria presente nas jornadas de Junho deste ano. Considera o articulista que a infiltração dos radicais “black blocs” conseguiu esvaziar um movimento de ruas legítimo e ordeiro nos seus inícios e lamenta esse fato. Assim conclui o articulista a sua análise: “Se fenecerem nesse esvaziamento patético, as manifestações de junho terão sido um malogro. Que grande pena. Sem gente na rua, gente de cara limpa, não será possível mudar o Brasil. (...). Um país em que a tropa de choque é treinada para ver no manifestante um inimigo - e onde os policiais se omitem criminosamente diante de tantos atos de vandalismo escancarado. Vivemos, enfim, num país que precisa mudar. Aí vêm os black blocs e expulsam das ruas os manifestantes pacíficos. Mesmo que involuntariamente, eles agem como os coveiros de uma esperança”.


As manifestações do espírito revolucionário moderno são, de fato, variáveis, abarcando a desordem populista destacada por Dora Kramer ou a tríade apresentada pelo professor Bucci. Mas há, bem no fundo, algo que, como vulcão nas profundezas marinhas, impele rochas incandescentes por baixo da calmaria das águas, dando ensejo a um tsunami que tudo arrasa quando desatado. Essa força bruta, incontida, é o espírito do que Talmon denominou a “democracia totalitária”, cujo formulador, no século XVIII, foi Jean-Jacques Rousseau. O filósofo de Genebra elaborou no seu Contrato Social, a fórmula para que a democracia dos modernos se tornasse democracia totalitária. O arrazoado do maluco pensador era claro, como reta é a lógica dos psicopatas: a felicidade geral da Nação decorre da unanimidade. Logo, pau na dissidência! Todos os meios são válidos para conseguir esse espírito de entropia universal, na unanimidade almejada: ameaças, terrorismo, polícia secreta, assassinatos. O importante é garantir o surgimento do “homem novo”, todo ele formatado ao redor da “vontade geral” que constitui o bem público. Esse é o regime da virtude. “Somente os puros, os desambiciosos, os impregnados de espírito público, estão chamados a governar” bradava, nas páginas de A Federação (jornal do Partido Republicano sul-rio-grandense), Júlio de Castilhos. O resultado foi uma ditadura científica que provocou, com a hegemonia partidária e a perseguição inclemente contra quem dissentisse do governo, as duas guerras civis mais sanguinolentas da nossa história republicana: a ocorrida entre 1892 e 1897 entre chimangos e maragatos, e o conflito com os federalistas que se opunham às reeleições crônicas do candidato oficial, Borges de Medeiros, em 1922-1923.


Está em ascensão, no horizonte político, perigoso esquema hegemônico que coopta tudo e todos ao redor do projeto de poder total que anima ao núcleo duro do PT. Por trás do maquiavelismo do Rasputim do Planalto, Gilberto Carvalho, e inspirando os avanços e recuos do ministro da Justiça, Eduardo Cardozo, que ora oferece apoio federal contra os desmandos, ora diz que deve haver diálogo com os terroristas mascarados, esconde-se o mesmo espírito que animou aos jacobinos franceses em 1789: a busca da unanimidade, bem como da entropia política, veiculadas pela hegemonia partidária.


Para agravar esse estado de coisas, o ministro da Justiça vem dar a sua contribuição ao Partido dos Trabalhadores na busca da hegemonia, ao alimentar o esquema de denúncias pífias levantadas pelo CADE (sob direção do sobrinho de Gilberto Carvalho) contra os governos paulistas sob comando do PSDB. Eduardo Cardozo transforma, assim, o Ministério num ponto avançado da luta político partidária para atacar opositores e beneficiar os planos do PT na conquista do governo de São Paulo. Ao acatar denúncias que se mostraram falsas de um ex-dirigente da Siemens com projetos de ascensão com as bênçãos partidárias, o Ministro Cardozo simplesmente confundiu alhos com bugalhos e colocou a sua pasta a serviço da luta eleitoreira. 


O jornalista Reinaldo Azevedo, em matéria postada no seu blog em 23 de novembro, explicitou claramente as reais dimensões desse desvio de conduta do ministro da Justiça, que não é de hoje, mas que se remonta ao ano passado. A propósito, o citado jornalista escreveu: “José Eduardo Cardozo atua de forma dedicada e metódica contra São Paulo. No surto de violência que atingiu o Estado em 2012, o ministro exerceu um papel lamentável, desestabilizador, que acabou resultando na queda do secretário de Segurança Pública. Nos protestos de junho, este senhor fez proselitismo contra o governo e contra a Polícia Militar. Quando os manifestantes botaram fogo no Itamaraty, não se ouviu a sua voz. Agora, as digitais do ministro aparecem nessa história da Siemens — confirmando, de resto, o que já se sabia. Diz ter encaminhado pessoalmente à Polícia Federal a denúncia de um sujeito que atua, é visível, como esbirro do PT. Cardozo não tem a isenção e a seriedade necessárias para continuar à frente do Ministério da Justiça. Estados democráticos exercem seu poder de vigilância, investigação e polícia para manter a ordem e coibir os faltosos. Estado policial é outra coisa: seleciona alvos e arma conspiratas para destruir adversários (...).” 


Com a palavra o Ministério Público, o Ministro em questão e a chefe dele, a Presidente da República.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A INFLUÊNCIA DE ROUSSEAU NA FORMAÇÃO E NA VIDA DE SIMON BOLIVAR

Simón Rodríguez  (1771-1854), o educador rousseauniano.
Simón Bolívar (1783-1830), o Libertador, formado na pedagogia rousseauniana por Simón Rodríguez.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), o pensador do "regime da virtude" que passou a inspirar os movimentos revolucionários na América Latina, ao longo dos séculos XIX e XX.



Em 1995 foi apresentado, no Colóquio Internacional de Montmorency sobre o pensamento de Rousseau, o trabalho que ora divulgo neste blog. Foi um estudo preliminar sobre a influência do pensador genebrino na vida e na obra de Simón Bolívar. O pensamento rousseauniano, certamente, está na origem de muitas das revoluções efetivadas na América Latina ao longo dos séculos XIX e XX. Justamente por conta da radicalidade com que esses eventos revolucionários  apresentaram  o corte com o passado, apregoando o surgimento de um "homem novo". Não foi apenas a Revolução Francesa a herdeira direta do pensamento de Rousseau. O "chavismo", na Venezuela, não se explicaria sem a referência a esse pensador e, claro, sem levar em consideração a vida e a obra do maior discípulo das ideias rousseaunianas nesse país, Simón Bolívar.

É indiscutível a presença dos ideais rousseaunianos nas lutas da independência dos vários países ibero-americanos (Cf. Sánches Vásquez, 1969; Vélez Rodríguez, 1978 e 1985, Arciniegas, 1984). Tenciono, neste trabalho, mostrar a inspiração exercida pelo filósofo de Genebra sobre uma das mais expressivas personalidades do mundo ibero-americano: o Libertador Simón Bolívar (1783-1830). Desenvolverei dois aspectos: 1) O Mestre, em que destacarei como o pensamento rousseauniano inspirou o tutor e mestre de Bolívar, don Simón Rodríguez (1771-1854) e como este marcou a formação intelectual do Libertador e 2) O Discípulo, em que analisarei a influência de Rousseau em Bolívar.



1) O Mestre



Simón Rodríguez foi, sem dúvida, o educador que exerceu maior influência na formação da personalidade do Libertador Simón Bolívar. Rodríguez nasceu em Caracas e veio falecer em Amotape, cidadezinha do Departamento de Piura (Perú) (Cf. Liévano Aguirre, 1987: 15-22).



Se teve alguém que encarnou de forma fiel o ideal de vida e de concepção humanística apregoados por Jean-Jacques Rousseau, foi Simón Rodríguez. Ele reproduziu, na sua vida e nos seus ensinamentos, os ideais rousseaunianos: autodidatismo, relação estreita entre natureza e sociedade, moral alicerçada na liberdade, domínio  do sentimento sobre a razão, teoria da bondade natural do homem e  doutrina do contrato social (Cf. Francovich, 1983: 2).



Simón Rodríguez também sofreu a influência de Holbach (1723-1789) e Saint-Simon (1760-1825). Do primeiro, o educador de Bolívar tirou a valorização do conhecimento científico e experimental da natureza, influência que, aliás, também tinha recebido de Rousseau, e do segundo os ideais socialistas, calcados sobre a idéia rousseauniana de igualdade. A filosofia que prevaleceu em Rodríguez foi, como se pode observar, a de Rousseau.



Como o filósofo de Genebra, Simón Rodríguez foi um pensador itinerante. “Não quero  -- dizia --  ser como as árvores, deitando raízes num lugar para não sair dali. O vento, a água, o sol, tudo que se move e não pára nunca, essa é a vida para mim” (In Castro: 1973, 22). O próprio Bolívar exprimiu da seguinte forma a personalidade itinerante  e cosmopolita do seu mestre e amigo: “É o melhor homem do mundo, mas, como é um filósofo cosmopolita, não tem pátria, nem lar, nem família, nem nada”(in Castro, 1973: 22). Nas suas atitudes práticas o mestre de Bolívar era também um rousseauniano puro: autodidata  -- como já foi salientado --, amante da natureza, defensor incansável dos oprimidos, reformador audacioso dos métodos pedagógicos, tratava-se de uma personalidade polifacética, difícil de ser enquadrada num sistema de pensamento ou num stablishment. Essa sua natural originalidade o levou a mudar de nome, tendo adotado o de “Samuel Robinson”. Guillermo Francovich (1945: 75) sintetizou assim a figura de Rodríguez: ”A personalidade do ‘Mestre do Libertador’, Simón Rodriguez, é uma das mais originais da história americana. São conhecidas várias anedotas suas graças às quais, se tivesse nascido na Grécia clássica, teria merecido figurar na galeria dos ‘filósofos ilustres’, de Diógenes Laercio, junto a mestres do pensar cínico e cético. Em que pese a sua aparente excentricidade, Simón Rodríguez foi um espírito profundamente humano e preocupado sempre com os problemas do bem-estar social”.



J. A. Cova (1943: 31) , por sua vez,  identifica Rodríguez como uma espécie de cópia de Rousseau, da seguinte forma: “As excentricidades, as debilidades ou as manias do angustiado escritor das Confissões revivem incorporadas no ‘dromômano’ impenitente,  no preceptor sistemático, no sofista e no poeta hipocondríaco”.



O contato de Simón Rodríguez com Bolívar deu-se em três momentos: na adolescência do seu pupilo, entre os 11 e os 14 anos (1794-1797), na sua juventude, aos 21 anos de idade (1804-1805) e vinte anos depois, quando já Bolívar era o Libertador de cinco países. Em todos esses momentos,  a influência do mestre sobre o discípulo foi decisiva.



Em relação à influência exercida por Rodríguez sobre o Bolívar adolescente, Jules Mancini (1970: 118) escreve:  “Investido de total autoridade sobre o seu discípulo predileto,  pensou então Rodríguez em realizar um projeto particularmente grato ao seu coração, o de tratar de pôr em prática o sistema por excelência de educação apregoado por Rousseau. O menino que lhe tinha sido entregue era,  como deve ser Emílio, ‘rico’, ‘de grande linhagem’,  órfão’, ‘robusto’ e ‘sadio’ e, ao mesmo tempo, não realizava Rodríguez o ideal do preceptor desejado por Jean-Jacques? ‘Jovem’, ‘prudente’, celibatário’ e independente’, ‘uma alma sublime’, qualidades ou atributos aos que podia pretender Simón Rodríguez quem, então,  tinha vinte e um anos e gozava da reputação de ser o melhor professor da cidade”.



A fim de que o discípulo desenvolvesse as suas potencialidades, o tutor dedicou-se, como dizia Rousseau (1958) no Émile ou de l’ Education, à “difícil tarefa de não ensinar nada ao seu discípulo”, a fim de que pudesse permanecer em “estado natural”. De outro lado, convencido da verdade do axioma rousseauniano de que “a razão do sábio acostuma se associar ao vigor do atleta”, Rodríguez prolongou a permanência do seu pupilo no campo e conseguiu desenvolver maravilhosamente as aptidões físicas do futuro Libertador, que se caracterizava por ser um andarilho incansável, um exímio ginete e um intrépido nadador com quem, como frisa Mancini 1970: 118) “não conseguiu competir nenhum dos seus companheiros de armas”.



Em relação à influência exercida por Simón Rodríguez no período de juventude de Bolívar, o próprio Libertador deu testemunho de grande valia. Em carta dirigida, de Paris, à sua prima Fanny D’ervieu de Villars, em 1804, Bolívar confessa que foi Simón Rodríguez quem o tirou do estado de depressão em que se encontrava após o falecimento de sua esposa María Teresa Rodríguez de Toro, ocorrido em 1803, e quem lhe indicou o caminho da luta em prol da liberdade da América espanhola, como meta que dêsse sentido à sua vida  (Bolívar, 1912: 41-42). Em 1805, mestre e discípulo viajaram a Itália e ali, no Monte Sacro, em Roma, Bolívar pronunciou, diante de Rodríguez, o famoso juramento de libertar os povos hispano-americanos (Mancini, 1970: 150).



Em relação à influência exercida por Simón Rodríguez na maturidade do Libertador, é muito significativa a carta dirigida por ele ao seu mestre, que então regressava à Ibero-América, depois de 20 anos de permanência na Europa.  Eis um trecho dessa carta, datada em 1824: “Ô, meu mestre! Ô, meu amigo! Ô, meu Robinson! O senhor na Colômbia! O senhor em Bogotá e não me falou nada, não me escreveu nada! Sem dúvida que o senhor é o homem (...) mais extraordinário do mundo (...). Ninguém mais do que eu sabe quanto o senhor ama a nossa adorada Colômbia. Lembra o senhor quando fomos ao Monte Sacro, em Roma,  jurar sobre aquela terra santa a liberdade da Pátria? (...) O senhor, meu mestre, quanto deve ter me observado de perto, mesmo que colocado em tão remota distância! Com que interesse o senhor deve ter seguido os meus passos, dirigidos muito antecipadamente pelo senhor mesmo (...). Não pode o senhor imaginar quão fundo gravaram-se no meu coração os seus ensinamentos; não tenho conseguido apagar sequer uma vírgula das grandes máximas que o senhor tem-me presenteado: sempre presentes aos meus olhos, tenho-as seguido como guias infalíveis (...). Fico impaciente por saber quais são os seus planos a respeito de tudo (...). O senhor contemplará com encanto a imensa pátria que tem sido esculpida na rocha do despotismo pelo buril vitorioso dos libertadores, os seus irmãos (...). Venha ao Chimborazo. Profane com o seu ousado pé a escala dos Titãs,. a coroa da Terra,  a torre inexpugnável do Universo Novo. (...) Amigo da natureza, venha perguntar a ela pela sua vida e pela sua essência primitiva (...). Lá (na Europa), ela está dobrada sob o peso dos anos, das doenças e do hálito pestilento dos homens; aqui ela é donzela, imaculada, formosa, ornada pela mão mesma do Criador” (apud Mancini, 1970: 154-155).



O Libertador quis que o  mestre irradiasse a luz dos seus conhecimentos nos países recém libertados. No Alto Perú (Bolívia), Simón Rodríguez tentou desenvolver as suas “escolas-modelo”, em que se realizaria o ideal de um “socialismo pedagógico”, com a finalidade de transformar as crianças abandonadas em cidadãos livres. A intenção desse empreendimento, frisava Rodríguez,  “não era encher o país com artesãos rivais ou miseráveis,  mas instruí-los e acostumá-los ao trabalho para fazé-los homens úteis, dar-lhes terras e apoiá-los nos seus empreendimentos. Tratava-se de colonizar o país com os seus próprios habitantes. Dava-se instrução e ofício às mulheres para que não se prostituíssem por necessidade, nem fizessem do matrimônio um negócio para garantir a sua subsistência” (apud Francovich, 1945: 79). A iniciativa de Rodríguez não prosperou, de um lado, por causa da sua falta de espírito prático e, de outro, devido às intrigas das oligarquias, das quais, aliás, foi também vítima o próprio Libertador, marginalizado da vida pública nos seus últimos anos (cf. Francovich, 1984: 2; García Márquez, 1989: 269-272; Mutis, 1982: 70-93).  Mestre e discípulo tiveram, assim,  um final de incompreensão, como o tivera também o genial inspirador de ambos, “o homem que acreditava no homem”, Rousseau, para repetir o feliz título da obra de Marc-Vincent Howlet (1994).





2) O Discípulo



Se bem é certo que a formação de Simón Bolívar sofreu, como vimos, a marcante influência do seu tutor e mestre, Simón Rodríguez, não se pode afirmar, contudo, que se circunscrevesse aos ideais humanísticos rousseaunianos do seu “Robinson”. Houve no Libertador, também, a formação militar.  Para compensar a formação heterodoxa e romântica que o tutor dispensava ao adolescente, o seu previdente tio, don Carlos Palacios, decidiu incorporá-lo como cadete no Batalhão de Voluntários de Aragua, o mesmo no qual o pai de Bolívar tinha servido. Entre 1797 e 1798, durante 13 meses, o futuro Libertador recebeu a sua formação militar.  Como frisa Sandoval Franky (1991: 40),  “(...) daí em diante, até a sua morte,  essa atividade seria a sua mais gloriosa, talvez a sua exclusiva e verdadeira profissão”.



Era evidentemente clara a feição militar da personalidade de Bolívar. “A guerra é meu elemento; os perigos, a minha glória”, afirmava ele mais tarde. Com ironia melancôlica, o Libertador escrevia ao general Santander: ”Sendo a organização dessa República tão sublime e eu tão soldado, não sou capaz de manejar teclas tão delicadas “. “Fora do exército  -- afirmava Bolívar em outra oportunidade -- estou fora do meu centro”. Mais uma afirmação significativa: “Soldado por necessidade e inclinação, o meu destino está traçado no campo ou nos quartéis”. Ou esta outra: “A minha horrível profissão militar tem-me obrigado a me formar uma consciência de soldado e um braço forte que não pode manejar o bastão mas a espada” (apud Sandoval Franky, 1991: 40). Se os ideais humanísticos e cívicos foram bebidos por Bolívar na fonte rousseauniana, o seu arquêtipo militar foi Napoleão. Como frisa Mancini (1970: 151), “não lhe foi possível se substrair à influência dos dois homens cujo pensamento e cuja ação dominam o século e a Jean-Jacques e a Napoleão é a quem Bolívar pedirá lições e exemplos”. Não obstante a admiração que o Libertador tinha pelo herói da França na época da assinatura do Tratado de Amiens, em 1802 (cf. Cova, 1943: 49), quando da coroação deste, em 1804, como Imperador, Bolívar considerou que Napoleão tinha traído os ideais republicanos. Ao general Tomás Cipriano de Mosquera (1977: 39) confessou, anos mais tarde: “Depois que Napoleão foi rei, a sua glória mesma parece-me o resplandor do inferno, as chamas do vulcão que cobria a prisão do mundo”.



Destarte, o arquêtipo militar que Napoleão representava estava submetido, na concepção de Bolívar, à preservação do ideal republicano apregoado por Rousseau, centrado na salvaguarda da salvação pública, num momento de crise de legitimidade como o que viviam as nações hispano-americanas.



O princípio que inspirou a gesta revolucionária de Bolívar foi, sem dúvida, o exposto por Rousseau (1962: 150)  no seu Contrat Social: “Só os maiores perigos podem contrabalançar (o poder) de alterar a ordem pública, e nunca se deve suspender o sagrado poder das leis, a não ser quando se trata da salvação da pátria. Nesses casos raros e manifestos, providencia-se a segurança pública por um ato particular que confia o cargo ao mais digno (...), nomeia-se um chefe supremo que faça silenciar todas as leis, suspendendo a vontade geral, sendo evidente que a primeira inteção do povo é a de que o Estado não pereça”. Esse foi o princípio que, por exemplo,  levou Bolívar a aceitar exercer a ditadura na Venezulea, em 1814 e no Peru, em 1824. Mas a inspiração rousseauniana do Libertador não parava aí. Uma vez garantida a independência e a liberdade às nações hispano-americanas, o Libertador aspirou ao supremo ideal rousseauniano: encarnar a figura do Legislador, o “(...) indivíduo único (...), ser extraordinário, inspirado e quase divino, capaz de dar a um povo, no ponto de partida, na origem de sua vida política, o seu ‘sistema de legislação’, as suas leis essenciais, fundamentais, fonte de instituições duradouras” (Chevallier, 1973: 173).



Assim, o aspecto fundamental do Bolívar político foi o do Legislador que pensou os fundamentos legais do pacto social, o qual garantiria a liberdade e a igualdade às nações recém libertadas do jugo espanhol. É evidente que a concepção constitucionalista do Libertador não se alicerçava, apenas, em fontes rousseaunianas. Inspiradores dela foram, também, Locke, Montesquieu, Sieyès e os constitucionalistas anglo-americanos. O projeto de constituição apresentado por Bolívar no Congresso de Angostura (1819) deixava ver essas influências nas oito grandes propostas ali contidas: 1) forma republicana de Estado; 2) a soberania nacional materializada nos representantes da nação eleitos por sufrágio censitário; 3) adoção da divisão dos poderes públicos, que seriam quatro: executivo, legislativo, judiciário e moral; 4) adoção dos direitos individuais e das liberdades públicas, à semelhança das experiências norte-americana e francesa; 5) abolição da escravidão e dos títulos nobiliárquicos; 6) organização política e administrativa com base no princípio centralista; 7) adoção do modelo presidencialista norte-americano, com um executivo monocrático controlado por um legislativo bi-cameral; 8) criação de um poder moral com funções para garantir uma fundamental educação cívica aos cidadãos (Rozo Acuña, 1983: 14-15).



Pode-se afirmar, no entanto, que a influência de Rousseau é a mais marcante no pensamento constitucional de Bolívar, toda vez que na filosofia política do genebrino se alicerça o aspecto mais original da proposta bolivariana: a idéia do poder moral. Bolívar pretendia, com ele,  dar ensejo ao “regime da virtude” apregoado por Rousseau no seu Contrat Social, e que consistia, fundamentalmente, no banimento dos interesses particulares para que emergissem o bem público e a vontade geral indivisível, infalível, absoluta, inalienável, sagrada e inviolável.



O seguinte trecho do discurso pronunciado por Bolívar em Angostura em 1819, é revelador da sua inspiração rousseauniana: “Para tirar deste caos a nossa nascente República, todas as nossas faculdades morais não serão suficientes, se não fundirmos a massa do povo num todo; a composição do governo num todo;  a legislação num todo, e o espírito nacional num todo. Unidade, unidade, unidade, deve ser a nossa consigna (...).  A educação popular deve ser o cuidado primogênito do amor paternal do Congresso. Moral e luzes são os pólos de uma República, moral e luzes são as nossas primeiras necessidades. Tomemos de Atenas o seu Areópago e os guardiães dos costumes e das leis; tomemos de Roma os seus censores e os seus tribunais domésticos; e fazendo uma Santa Aliança dessas instituições morais renovemos no mundo a idéia de um povo que não se contenta com ser livre e forte, mas que quer ser virtuoso. Tomemos de Esparta os seus austeros estabelecimentos, e formando desses três mananciais uma fonte de virtude,  demos à nossa República uma quarta potestade cujo domínio seja a infância e o coração dos homens, o espírito público, os bons costumes e a moral republicana. Constituamos esse Areópago para que vele sobre a educação das crianças, sobre a instrução nacional; para que purifique o que se tenha corrompido na República (...).  A jurisdição desse Tribunal verdadeiramente Santo, deverá ser efetiva em relação à educação e à instrução e de opinião somente nas penas e castigos. Mas os seus anais ou registros onde se consignem as suas atas ou deliberações; os princípios morais e as ações dos cidadãos, serão os livros da virtude e do vício. Livros que consultará o povo para as suas eleições, os Magistrados para as suas resoluções e os juízes para os seus juízos (...)” (Bolívar, 1971: 116-117).



Lendo as anteriores palavras, conclui-se que não é exagero dos biógrafos do Libertador (La Croix, Ducoudray-Holstein, O’Leary, Mancini, etc.) a afirmação de que as obras de Rousseau  “constituem (...) em toda ocasião, a sua leitura favorita. Tira dos Discursos o fundo do seu vocabulário até o ponto que, ao ler Bolívar, a gente crê, às vezes, ler uma tradução de Rousseau. Quando se trata de celebrar com festas os primeiros triunfos dos exércitos libertadores, consulta a Lettre sur les spectacles. O Contrat Social ‘farol dos legisladores’, é o seu código de política, e a Profession de foi du vicaire savoyard lhe serve de religião” (Mancini, 1970: 151).



Mas não foi apenas o Bolívar político ou legislador que revelou a influência rousseauniana. Ela se revela também, de forma marcante, no Bolívar educador, para quem o processo educacional consistia no “endurecimento do corpo como suporte do espírito” (apud Acevedo Carmona, 1989: 26). A influência rousseauniana manifesta-se, outrossim, no Bolívar romântico que ama as mulheres e a vida do bon sauvage e que sente fastídio pela velha Europa. A Fanny de Villars, de quem se apaixonou em Paris, escreveia o jovem Bolívar em 1807: “Vou procurar outro modo de existir; estou fastidiado com a Europa e com as suas velhas sociedades; regresso à América. O que farei ali? (...). Ignoro-o (...).  Sabeis que tudo em mim é espontâneo e que jamais faço projetos. A vida do selvagem possui para mim muitos encantos. É  provável que eu construa uma palhoça em meio aos belos bosques da Venezuela (...)  (apud Gaitán de Paris, 1991: 43). Outro traço romântico do Libertador, que o aproxima de Rousseau, vamos encontrar na mística revolucionária que o inspirava e que o levou a proferir, em 1805,  no Monte Sacro, em Roma, o juramento de libertar a sua pátria (Mancini, 1970: 149-150). Feição romântica é também a sua rousseauniana admiração pela natureza, expressão da qual foi o seu memorável  “Delírio sobre o Chimborazo” (1824) (Mancini, 1970:  148-149; cf. Arciniegas, 1988: 57) , bem como o fascínio e o magnetismo de sua personalidade que, sem, dúvida, lembram o herói  à la Rousseau e o carisma napoleônico (cf. Noguera Mendoza-Castro, 1983: 83, 137, 168).



Como Rousseau e como o seu mestre, Simón Rodríguez, Bolívar teve um final de incompreensão, de que dão testemunho as seguintes palavras, escritas pouco antes de morrer à amiga Fanny de Villars: “(...) Morro desprezado, proscrito, detestado por aqueles mesmos que gozaram dos meus favores; vítima de intensa dor, cativo de infinitas amarguras. Deixo-te minhas recordações, minhas tristezas e as lágrimas que meus olhos não chegaram a derramar” (in Castro, 1973: 275).





Bibliografia



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