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domingo, 30 de agosto de 2009

A REUNIÃO DE BARILOCHE E O IDEAL DA TRANSPARÊNCIA

A reunião da Unasul em Bariloche, Argentina, na semana passada, terminou sem vencedores nem vencidos. O clima prévio ao conclave foi de agitação, a partir das denúncias do governante venezuelano, no sentido de que o convênio assinado entre a Colômbia e os Estados Unidos, que permite a este país usar bases colombianas no combate ao narcotráfico e ao terrorismo, corresponderia à instauração de um clima de guerra na região. O tom de anti-norteamericanismo foi evidente, como não podia deixar de ser, nas declarações de Chávez, Correa e Morales. Papel de destaque coube ao presidente colombiano, Álvaro Uribe, que com coragem denunciou o terrorismo das FARC e dos para-militares, colocou no tapete a indevida ingerência do presidente venezuelano nos assuntos colombianos e terminou influenciando, na reunião, para que a declaração final apresentasse um item no sentido de combater narcotraficantes e guerrilheiros no âmbito da Unasul. Papel de moderação desempenhou o presidente Lula, fazendo com que as denúncias de Uribe contra Chávez não chegassem a incendiar a reunião de chefes de Estado e corrigindo o extremismo de Correa, que conseguiu dilatar a reunião, para além do tempo previsto. No final das contas, o governo de Uribe conseguiu um item positivo ao manter incólume o convênio de cooperação entre a Colômbia e os Estados Unidos, impedindo a quebra da soberania do seu país, ao excluir possíveis missões de vigilância da Unasul em território colombiano, (ao contrário do que queriam Correa e Chávez).

Falou-se muito em transparência e, neste item, Uribe ganhou mais um ponto importante ao conseguir a transmissão, em vivo e em direto, sem edições feitas pelos técnicos do governo argentino, das imagens da reunião. Isso desagradou a Lula. Mas enfraqueceu a posição de Chávez, que não teve coragem de repetir os impropérios que tinha pronunciado dias antes contra Uribe Vélez, conclamando a um movimento revolucionário bolivariano no vizinho país e ameaçando as cidades colombianas com os seus aviões russos. É claro que Uribe não conseguiu formular todas as questões que tinha para colocar. Mas o caudilho bolivariano sentiu que havia artilharia pesada, caso abusasse das suas provocações. De fato, muitas mais perguntas tinha a responder Chávez. Ditadores não gostam de transparência. Democratas não se incomodam com ela. Uribe explicou, claramente, sem subterfúgios, o por quê da colaboração entre os Estados Unidos e a Colômbia, na política de “segurança democrática”. Deixou claro que as FARC criaram um clima de extermínio genocida na população colombiana. E inseriu os paramilitares também nesse contexto. Esclareceu que o convênio de cooperação com os americanos foi tramitado seguindo todos os imperativos institucionais. E foi enfático em afirmar que não cederia um milímetro na exigência de respeito à soberania do seu país.

Falando em transparência, lembremos o enunciado deste princípio ético, na formulação dada por Kant na sua obra A paz perpétua (1795): “Age de tal forma que os motivos da tua ação possam ser divulgados publicamente”. Ora, a aplicação deste imperativo certamente incomodaria mais a Chávez do que a qualquer um dos chefes de Estado presentes em Bariloche. O caudilho de Caracas deveria esclarecer, de uma vez por todas, como chegaram às mãos das FARC poderosos armamentos vendidos pela Suécia ao seu país. Deveria explicar, também, por que conhecidos guerrilheiros dessa organização terrorista circulam livremente em Caracas (Uribe levou fotos que confirmam este fato). Era seu dever esclarecer a quantas andam as unidades militares venezuelanas que foram deslocadas para a Bolívia, para dar uma “forcinha” ao presidente e líder cocalero Morales. Poderia ilustrar sobre os seus contatos secretos com o governo iraniano, em assuntos vinculados a questões nucleares. Deveria dar explicações, outrossim, em relação ao contrato com russos e chineses para aquisição de armamento pesado. Poderia informar qual seria o alcance, em termos de “propiciar ventos de guerra”, da decisão de construir em território venezuelano uma fábrica de rifles Kalashnikov para armar as milícias bolivarianas. Poderia informar se não passam de fantasias os rumores em torno à presença, na Venezuela, de terroristas do Hesbolah. E deveria prestar esclarecimentos por outro lado, acerca dos bilhões de petrodólares que vem distribuindo em vários países sul-americanos, das Caraíbas e da América Central, para influenciar nos processos eleitorais. A mais recente denúncia, neste terreno, informa acerca da estruturação de grupos bolivarianos, na Colômbia, financiados por Caracas com miras a organizar um partido favorável ao caudilho venezuelano, a fim de intervir nas eleições presidenciais de 2010.

Muitas perguntas que poderiam ter sido feitas no seio da reunião da Unasul e que, evidentemente, não seriam formuladas sem abalar os alicerces desse novo grupo de países. O que não significa que tenham cessado os riscos para a estabilidade e a segurança da América do Sul, decorrentes das malucas iniciativas chavistas. Dos moderados da região poder-se-ia afirmar o que o grande poeta Rimbaud escrevia de si próprio: “Par delicatesse j´ai perdu ma vie” (perdi a minha vida por delicadeza). Por causa do espírito politicamente correto de não querer desafiar o autocrata de plantão – seja ele Hitler, Stalin ou Chávez – não são feitas ao maluco em questão as perguntas básicas que dariam um mínimo de transparência às suas maquinações, matando no nascedouro outras iniciativas niilistas.

Se bem os chefes de Estado presentes em Bariloche fizeram o jogo do politicamente correto – com exceção de Uribe –, não está ocorrendo o mesmo com as sociedades latino-americanas. Dois exemplos: A UPLA (União de Partidos Latino-Americanos), filiada à IDU (União Internacional Democrata), realiza no Rio de Janeiro, nos dias 10 e 11 de Setembro, junto com o partido Democratas do Brasil e sua Fundação Liberdade e Cidadania, um encontro de presidentes de partidos associados e lideres latino-americanos, com a finalidade de fortalecer os laços entre os Presidentes dos Partidos integrantes da União de Partidos Latino-americanos e outros afins, a fim de construir una alternativa livre e democrática, em face da Alianza Bolivariana para las Américas (ALBA) promovida pelo presidente Chávez. De outro lado, cidadãos colombianos estão convocando, através de Twitter e Facebook, para uma passeata a ser realizada, no dia 4 de Setembro, nas principais cidades latino-americanas e do mundo, contra a irresponsável atitude intervencionista de Chávez nos assuntos de outros países.

Terminando: já que falamos nos princípios éticos kantianos, valha lembrar este outro, aplicável especialmente no caso da idéia de terceira reeleição. Idéia maluca que Chávez evidentemente adota, mas que aparece como tentação para Alvaro Uribe. O princípio reza assim: "age sempre de forma tal que o princípio de tua ação possa se tornar lei universal". Se o desejo da terceira reeleição vingasse, certamente atravancaria o jogo democrático, matando-o pela raíz. A continuidade indefinida (e a terceira reeleição certamente é o início da perpetuação) termina desmoralizando o jogo democrático que é, por essência, alternância no poder.

domingo, 23 de agosto de 2009

Tudo pêlo social


Amigos, meus colegas de "Notas de rodapé" deram-me uma excelente idéia, além de terem me passado a imagem. Estamos no Brasil cabeludo! A barba manda, o bigode obedece e o bigodão agradece!É o patrimonialismo na sua mais pura expressão: o tudo pelo social (daquele longínquo governo Sarney, lembram?) virou tudo pêlo social! (a expressão foi cunhada pelo grande Millôr Fernandes). Trocado em miúdos, é o melhor empreendimento do mundo, um negócio da China ou das Arábias: privatização de lucros, socialização de prejuízos. Isso sob a inspiração do imperativo categórico macunaímico-pombalino: levar vantagem em tudo, driblando o trabalho produtivo! A mais excelente exemplificação da ética do atalho ou do não trabalho. O meu amigo, embaixador Meira Penna, discorreu longamente sobre esses hábitos macunaímicos, no seu belo ensaio Em berço esplêndido. É o ideal de burocratas e de políticos patrimonialistas, como esses que inocentaram Sarney e como o próprio.

VIOLENCIA EN LAS CIUDADES LATINOAMERICANAS

Acaba de salir a la luz pública el nuevo informe de Diarios de América,centrado en la trágica constatación del aumento desmesurado de la violencia en las ciudades latinoamericanas.

El informe indica que hay algo en común en la escalada de la violencia en las ciudades latinoamericanas. Se trata de la ausencia de políticas públicas que respondan a ese problema. Se ha constatado, también, que el caudal de violencia aumenta, en la medida en que, desde el punto de vista de las políticas económicas, no hay un estímulo grande para la generación de empleos.

Una y otra causas (ausencia de políticas públicas de seguridad y ausencia de políticas económicas favorables a la inversión) provienen de la estructura patrimonialista del Estado en estas sociedades. Heredamos de España y Portugal el vicio privatizante: el Estado es gerenciado como propiedad familiar y es entendido como fuente de enriquecimiento por la casta gobernante. Esto hace que los "dueños del poder" sólo cuiden de mejorar sus ingresos mediante la distribución fraudulenta de parcelas del dinero público, en un carnaval de corrupción difícil de ser estancado.

El ejemplo más evidente lo tenemos en Brasil, con la serie de "actos secretos" del Senado de la República, para beneficiar a familiares y amigos de los honorables Senadores. En estos días, otro ejemplo viene a ser dado por el gobierno Lula: va a castigar a los empresarios rurales con la exigencia de increíbles índices de productividad, que pasarán a ser obligatorios so pena de que las propiedades abajo de ellos sean desapropiadas para la reforma agraria. Esta medida ha sido aprobada por fuera del Congreso, en actos de pretendida legitimación con las centrales sindicales y con "consejos técnicos", en los que los más importantes participantes son los militantes-ladrones del Movimiento de los Sin Tierra, que se han especializado en invadir propiedades productivas.

Por debajo de esta medida evidentemente populista está el dedo maligno de José Dirceu, la eminencia gris del régimen lulista. Dirceu es un comunista convicto, para quien la propiedad privada no vale nada. Recordemos que Lula lo tiene como uno de sus consejeros más próximos, a pesar de haber sido defenestrado del gobierno por causa del escándalo conocido con el nombre de "mensalão". Vale la pena no olvidar, por otro lado, que Lula es, junto con Fidel Castro y las FARC, fundador del Foro de São Paulo, que tiene como finalidad dar vida nueva al comunismo internacional, ya sepultado en otros Continentes.

Es evidente que con un "estímulo" de esta naturaleza, se irá por el suelo la productividad del sector del agronegocio en Brasil, que es la gallina de los huevos de oro, que le ha garantizado al propio gobierno Lula el recaudo extraordinario de impuestos, que por su vez le han permitido al gobierno ostentar aumentos significativos en las reservas cambiales del país. Esas reservas, a bien de la verdad, a lo largo de este año han entrado en baja, por causa del desmedido gasto público con los llamados "programas sociales" de Lula, que miran a incrementar la campaña de la candidata oficial Dilma Roussef a las elecciones presidenciales del 2010.

Cuál es el remedio para que los países latinoamericanos puedan salir del mal de la violencia que los afecta crónicamente? Sólo hay un camino: Cambiar la cultura patrimonialista por una educación cívica que enseñe que el espacio público es de todos, comenzando por el Estado. Y reconstruír, a partir de esta convicción, los canales de representación ciudadana en la gestión del poder público.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O CHAPOLIN E O CHÁVEZ



“O Convênio Andrés Bello (CAB) proibiu a instalação, em Bogotá, da mostra em que um artista colombiano retrata o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, como o super-herói Chapolin Colorado, ao considerar que a obra é uma falta de respeito ao líder. A obra do artista plástico Jorge Méndez era patrocinada pelo Convênio Andrés Bello, organismo de integração criado em 1970 que tem 12 países ibero-americanos como membros, e que depois acabou decidindo cancelar a exposição. Os convites da mostra apresentavam Chávez vestido como Chapolin Colorado, personagem criado pelo humorista mexicano Roberto Gómez Bolaños na década de 1970. Em entrevista a um site local, o artista disse que proibir a obra foi um equivoco, alegando que a exposição não foi totalmente vista. Segundo ele, a direção do instituto cultural não prestou atenção em todos os elementos estilísticos da obra, e olharam apenas o lado político” (O Estado de S. Paulo, 21 de agosto de 2009).

Caros leitores, diante desta notícia, tenho a dizer que não concordo com a proibição, nem com o motivo apontado: arte é arte e o que o artista plástico Jorge Méndez fez foi uma recriação da realidade. Impedir a exposição de apresentar a mencionada obra é mais um episódio de “censura politicamente correta”. Se de falta de respeito se tratasse, poder-se-ia alegar pouca consideração para com o super-herói Chapolin Colorado, que alegrou as manhãs de gerações de tele-ouvintes. O Chapolin era ingênuo, simpático, divertido, enquanto o Chávez faz chorar criancinhas. Numa superposição de imagens Chávez/Chapolin, certamente sai perdendo o segundo. Mas a figura criada por Roberto Bolaños é tão simpática, que serve até para descontrair um pouco em face da carranca do autocrata do Palácio Miraflores. O que o artista plástico Jorge Méndez fez foi tentar descontrair o público com a superposição de figuras, criando uma espécie de Chapochávez.

E por falar em censura “politicamente correta”, esta jamais poupou líderes chamados “da direita”. Quantas caricaturas e colagens se fizeram com Bush ou com Pinochet, quando este ainda estava vivo! Pretender censurar a obra de Jorge Méndez, só porque representa o caudilho bolivariano é, a meu ver, inaceitável. Dois pesos e duas medidas! Algo tão sinistro quanto a censura judicial contra o Estadão porque revelou os podres do patriarca patrimonialista do Maranhão, só porque ele é aliado do Lula! Convenhamos: os administradores do Convênio Andrés Bello pegaram pesado e se alinharam à censura “politicamente correta”, num ato ideológico que empobrece as relações culturais entre os países ibero-americanos. Mais uma claudicação dos intelectuais perante a onda populista que grassa no nosso Continente!

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

OS SESSENTA ANOS DO IBF

No nosso País, onde a precariedade institucional é notável, uma entidade cultural completar os sessenta anos de existência é façanha digna de comemoração. Façanha tanto maior se a instituição for privada (independente, portanto, do favor oficial) e, ainda por cima, liberal e pluralista, nesta terra de patotas, atos institucionais, censura judicial à imprensa, medidas provisórias e cultura política patrimonialista.

A instituição cultural a que me refiro é o Instituto Brasileiro de Filosofia, criado em São Paulo, em 1949, pelo saudoso jurista e filósofo Miguel Reale (1910-2006). O órgão de divulgação do Instituto, a Revista Brasileira de Filosofia, tem sido editada sem interrupção desde 1951, e é uma das mais antigas publicações periódicas de caráter filosófico da América Latina. Segundo destacava o professor Reale em 2005, “A grande missão do IBF foi estabelecer um contato permanente entre os pensadores brasileiros, devido à Revista Brasileira de Filosofia e a periódicos congressos nacionais e internacionais. Com isso, o Brasil passou a ter o seu lugar no mundo filosófico universal, não ficando, porém, limitado à exegese do pensamento estrangeiro”.

Quando foi comemorado o cinqüentenário do IBF, reuniu-se em São Paulo, há dez anos atrás, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, o VI Congresso Brasileiro de Filosofia. Do evento, presidido por Miguel Reale, participou uma centena de docentes e pesquisadores vindos dos vários Estados do Brasil e também de outros países como Argentina, Itália, Peru, Espanha, Alemanha e Portugal. Ao ensejo do VI Congresso Brasileiro de Filosofia teve lugar também o Colóquio Antero de Quental, dedicado ao estudo de filósofos portugueses.

As comemorações pelos sessenta anos do Instituto ocorrem em vários lugares, sendo que um dos eventos mais marcantes será o Colóquio Luso-Brasileiro de Filosofia que se reunirá em São João Del Rei, na Universidade Federal dessa cidade, entre 14 e 18 de Setembro. O evento será promovido, conjuntamente, pela Universidade Federal de São João Del Rei, pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira (criado em 1991, seguindo a inspiração pluralista do IBF) e pelo Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-americanos da Universidade Federal de Juiz de Fora. Participarão desse colóquio vários membros do IBF, bem como pesquisadores brasileiros e estrangeiros.

O mais importante significado do Instituto Brasileiro de Filosofia consiste em que estimulou, entre nós, a consolidação e a expansão dos estudos acerca da Filosofia Brasileira. No que tange a este item, Miguel Reale formulou a metodologia que tornou possível o estudo isento dos diversos pensadores.

Essa metodologia consta dos seguintes passos, segundo a síntese que dela fez Antônio Paim: 1) identificar o problema (ou os problemas) que tinha pela frente o pensador, prescindindo do empenho de filiá-lo a essa ou àquela corrente; 2) abandonar o confronto de interpretações e, portanto, o cotejo excludente das idéias do pensador estudado em face de outros autores ou correntes de pensamento; 3) ocupar-se preferentemente da identificação de elos e derivações que permitam apreender as linhas de continuidade de nossa meditação.

Graças a esta metodologia foi possível, aos pesquisadores do IBF e aos alunos dos Cursos de Pós-graduação em Filosofia Brasileira que funcionaram entre 1979 e 1996, estudar um número bastante representativo de pensadores brasileiros, pertencentes a correntes doutrinárias as mais variadas, sem preconceitos de credo religioso ou ideologia política. É esta, sem lugar a dúvidas, a mais importante contribuição que, do ângulo metodológico, fez o Instituto Brasileiro de Filosofia, no contexto latino-americano. À luz dessa metodologia formaram-se, ao longo dos últimos quarenta anos, várias gerações de estudiosos da Filosofia Brasileira, bem como das demais filosofias presentes na América Latina.

No que tange à divulgação do Pensamento Brasileiro, além da realização de vários Congressos nacionais e internacionais, o IBF desenvolveu ampla tarefa de edição de textos, de que surgiram as coleções: Estante do Pensamento Brasileiro (com apoio da editora da USP) e Biblioteca do Pensamento Brasileiro (em convênio com a Editora Convívio). Pesquisadores do IBF participaram, outrossim, entre 1989 e 1992, sob a orientação de Antônio Paim, Roque Cabral e outros catedráticos portugueses, da elaboração da Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia (publicada em Lisboa pela Editorial Verbo). A partir de 1986, alguns pesquisadores do IBF têm participado do Projeto Ensayo, desenvolvido pela Universidade de Georgia (Estados Unidos). Dessa iniciativa surgiram os cinco volumes do Anuário bibliográfico do Pensamento ibérico e ibero-americano, que podem ser consultados no site do mencionado projeto (http://www.ensayistas.org), junto com sínteses biobibliográficas de autores brasileiros e portugueses.

A comemoração dos sessenta anos do IBF representa a conquista de um espaço livre e pluralista para a formulação e a divulgação do pensamento filosófico brasileiro. E indica que já foi conquistado o objetivo que Miguel Reale traçou para a meditação filosófica nacional, com as seguintes palavras: "Quando vivermos realmente inseridos na problemática de nossas circunstâncias, natural e espontaneamente, sem sentirmos mais a necessidade de proclamá-lo a todo instante, quando houver essa atitude nova, saberemos conversar sobre nós mesmos e entre nós mesmos, recebendo idéias estrangeiras como acolhemos uma visita que nos enriquece, mas que não chega a privar-nos da intimidade do nosso lar".

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

CHAVISTAS, BOLIVARIANOS E DEMAIS DISCIPULOS DE ROUSSEAU

Por trás dos Chávez, dos Zelayas, dos Morales, dos Correas, dos Lulas da vida, o fundamento conceitual comum que encontramos é o velho espírito rousseauniano, que deu ensejo à denominada por Talmon de “democracia totalitária” (na obra que leva o mesmo título: As origens da democracia totalitária). O fenômeno foi amplamente estudado no Brasil pelo saudoso pensador liberal Roque Spencer Maciel de Barros, no seu clássico livro intitulado: O fenômeno totalitário.

Da síndrome rousseauniana foi vítima, aliás, importante herói que boa parte dos atuais caudilhos latino-americanos têm como arquétipo: o Libertador Simón Bolívar. O grande general tinha sido discípulo, na sua juventude, de um maluco autodidata, poucos anos mais velho do que ele, Simon Rodríguez, que tinha lido com paixão a obra do filósofo de Genebra e que, tendo virado tutor do rapazola, decidiu aplicar, na sua educação, os princípios contidos na obra pedagógica de Rousseau, O Emílio ou da educação. Resultado: saiu do forno pedagógico um romântico voluntarioso, amante da natureza e das mulheres, aventureiro, impulsivo, de modos rudes, intuitivo e que entendia a política à maneira rousseauniana, como unanimidade ao redor de quem encarnasse a Vontade Geral. Enquanto se tratou de vencer os espanhóis nas geladas montanhas andinas ou nas ardentes planícies de Venezuela, a receita rousseauniana deu certo: em poucos anos Bolívar, (de forma semelhante a como Napoleão tinha organizado o Bloco Continental na Europa, com a ajuda do rolo compressor da Grande Armée), libertou do jugo ibérico cinco nações, dando ensejo a um grande país, La Nueva Granada, que inicialmente incluiu a Colômbia, a Venezuela e o Equador, mas que deveria abarcar, também, a Bolívia e o Peru. Mas o navio fez água quando se tratou de organizar politicamente esse imenso território: Bolívar não soube lidar com a diversidade de interesses das elites dos países recém-libertados.

O problema fundamental do espírito rousseauniano é a convicção de que a política é questão de unanimidade. Trata-se, como lembra Roque Spencer, de uma alternativa que, na Antigüidade, tinha sido alimentada por Platão na sua obra A República. Para o filósofo ateniense, a Polis deveria ser construída sobre a base da unanimidade ao redor do Rei Filósofo. Contraposto a essa visão, Aristóteles, na sua obra A Política, considerava que as questões relativas à organização da Polis não poderiam ser objeto de unanimidade, mas apenas de consenso entre opiniões divergentes, posto que estava se lidando com um objeto problemático: a liberdade humana. Para o filósofo de Estagira, nada havia de mais variado do que os interesses dos homens; os juízos relativos a eles, portanto, não poderiam ser categóricos, mas dialéticos.
Sintetizando a proposta rousseauniana (que se encontra no 8º capítulo do conhecido livro de Rousseau intitulado: Acerca do Contrato Social), temos os seguintes pontos: 1- a felicidade da Humanidade consiste no surgimento do Homem Novo identificado totalmente com a Vontade Geral (ou com o Interesse Público); 2- a infelicidade consiste no fato de que os indivíduos defendam os seus interesses particulares, não os colocando em função do Interesse Público; 3 - o caminho para a reconquista da felicidade na sociedade estraçalhada pelos conflitos entre os interesses individuais, consiste na reeducação ou a simples eliminação dos indivíduos contaminados pelo egoísmo, a fim de que sejam abandonados os mesquinhos interesses particulares em benefício do Interesse Público; 4 - Essa transformação será obra dos puros, aquele grupo que constitui a "vanguarda do povo"; eles são os melhores, porque renunciaram aos seus interesses individuais em prol do Bem Público; 5 - todos os meios são válidos para os puros conseguirem enquadrar o resto da sociedade ao redor da aprovação unânime da sua proposta, sendo que o primeiro passo consiste na eliminação dos dissidentes.

Benjamin Constant de Rebecque, no seu ensaio de 1815 intitulado: Princípios de Política, destacou o ponto central do receituário rousseauniano: a Soberania Popular, que é encarnada pela Vontade Geral, não tem limites; os puros, assim, podem dispor a seu bel prazer da vida, honra e bens dos cidadãos. Ora, frisa Constant, a soberania deve ser limitada, não podendo invadir o foro íntimo dos indivíduos, nem se sobrepor aos direitos inalienáveis deles à vida, à liberdade e às posses. Como os interesses dos indivíduos passaram a ser representados no Parlamento, Constant chamava a atenção para o ódio que a instituição do governo representativo desatava nos puros de plantão na França do final do século XVIII, os Jacobinos. Para o ilustre pensador suíço-francês, a construção do Estado não seria questão de unanimidade, mas de consensos surgidos da representação de interesses no seio do Parlamento.

Bom, todos sabemos como se desenrolou a história do messianismo político rousseauniano. O papel de "puros" passou a ser reivindicado pelos ativistas das várias denominações, desde os mencionados jacobinos, passando pelos bonapartistas, pelos republicanos enragés, pelos socialistas estatizantes do século XIX na França, pelos bolcheviques, pelos guerrilheiros de Sierra Maestra, pelos castilhistas gaúchos, pelos petistas, pelos bolivarianos...

"Sem medo de ser feliz" (de acordo com o que fixem os "puros" do momento, que confundem evidentemente os seus próprios interesses com o interesse público) e "pau nos dissidentes", essas são as duas máximas dos rousseaunianos. Desde o Libertador Simón Bolívar (que cunhou o dístico "Pátria ou Morte"), até Che Guevara e os bolivarianos populistas, a ideologia rousseauniana é a que alimenta essas aventuras desastradas, que trazem mais cadeias do que liberdades.

Ali onde o rousseaunianismo vingou sobre a tradição feudal, inspirada pelo espírito do cartesianismo e influenciada, mesmo que temporariamente, pelo calvinismo huguenote, como na França, surgiram instituições absolutistas fortemente alicerçadas numa burocracia racional: os dois momentos principais dessa realidade foram o Reino de Luís XIV, no século XVII, e o Império napoleônico, no início do século XIX. Ali onde o denominador comum foi o velho patrimonialismo, o rousseaunianismo evoluiu em direção a formas asiáticas de despotismo, como as ditaduras do leste europeu ou os caudilhismos latino-americanos. A ditadura comunista sob todas as suas denominações (soviética, maoísta, cubana ou bolivariana, defendida pelos integrantes do Foro de São Paulo, de que Lula é um dos fundadores) é a expressão, na história do século XX e neste início de século XXI, desse velho receituário rousseauniano, cunhado por um genial pensador louco que esquizofrenicamente identificou a democracia como a morte da liberdade. "Nihil novum sub sole"!