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quinta-feira, 24 de julho de 2014

PRESIDENCIALISMO IMPERIAL



“A Constituição (...) queria garantir ao Estado um executivo estável, forte e eficiente, respeitando, ao mesmo tempo, os princípios da democracia. Mas, com o correr dos anos, a instituição presidencial virou onipotente, irresponsável e – paradoxalmente – incompetente. Querendo abarcar a totalidade da vida pública, o poder presidencial invade todos os domínios, paralisa a ação e não dá a mínima para a sociedade que não consegue reforma-lo, enquanto que os poderes legislativo e judiciário perdem a sua autoridade, os costumes políticos se corrompem e instâncias desprovidas de legitimidade democrática ditam a sua lei. (...)”. 


Palavras escritas por algum oposicionista ao governo de Dilma? Não. Foram redigidas em 1992, pelo escritor, filósofo e jornalista francês Jean-François Revel (1924-2006), membro da Academia Francesa de Letras, para criticar a corrupção e o autoritarismo que grassavam no Estado francês, que foi monopolizado pelo Executivo. Mandava, na época, na França, o presidente socialista François Miterrand (1916-1996), que ficou 14 anos na presidência da República, entre 1981 e 1995. Como os leitores podem observar, a semelhança com o Brasil de hoje é bem grande. Porque, aliás, a história francesa se assemelha muito à brasileira, no que tange à forma como se consolidou o Estado, com um Executivo hipertrofiado.


Lá como cá, o Executivo hipertrofiado instalou no Estado a irracionalidade e a improvisação. Lá como cá, essa pesada herança finca profundas raízes na história. Na França, o imperialismo presidencial é herdeiro direto do espírito absolutista de Luis XIV (1638-1715), que cunhou a famosa frase: “L´État c´est moi” (“O Estado sou eu”), que passou para os jacobinos, no final do século XVIII, que protagonizaram as desgraças da Revolução Francesa, ao colocar por cima de tudo e de todos o poder total do Diretório, que terminou sendo canalizado pelo genial Napoleão Bonaparte (1769-1821) no seu projeto de imperialismo unipessoal, que modificou as fronteiras da Europa, entre 1804 e 1814, com um saldo trágico de 3 milhões de vítimas. 


No Brasil, o “presidencialismo imperial” é filho direto do Castilhismo, que constituiu a primeira tentativa bem sucedida de ditadura republicana ao redor de um Executivo-legiferante. Por sua vez, o Castilhismo inspirou-se no despotismo esclarecido do Marquês de Pombal, com a sua tendência estatizante na política, na economia (com os monopólios estatais) e na cultura (com a nova forma de saber pseudocientífico garantido pelo Estado onipotente e legitimador das suas aventuras). Getulismo, regime militar e, hoje, lulopetismo, seriam frutos dessa árvore do absolutismo caboclo.


 Convenhamos que com o Getulismo e com o regime de 64 houve centralização do poder no Executivo, mas com o cuidado de dar satisfação à sociedade por razões tecnocráticas, mantendo um mínimo de eficiência e de decência no trato da coisa pública. No entanto, infelizmente, com o correr das décadas, o Executivo imperial perdeu toda a vergonha na cara e é exercido, hoje, como mandato unipessoal pela presidenta-poste, que manda e desmanda na economia, na política e na cultura, sem dar a mínima importância para os anseios e os reclamos da sociedade. O país é hoje gerido como apêndice familístico do PT e dos seus obscuros interesses sindicais, que tudo enxergam como passível de privatização em benefício da nova oligarquia petralha, que aspira a se perpetuar no poder.


Em relação à desagregação social e à sem-vergonhice de que se revestiu, na França, o “absolutismo ineficaz” do Presidente da República, Jean-François Revel escreveu o seu clássico livro intitulado: L´Absolutisme inefficace, ou contre le présidentialisme à la française (O Absolutismo ineficaz ou contra o presidencialismo à francesa, Paris: Plon, 1992). Nessa obra, encontramos as seguintes palavras sobre o caráter destrutivo do presidencialismo francês: “(...) É o presidente que está a serviço do Estado, ou o Estado que está a serviço do presidente? Aí está toda a questão da Vª República. Essa questão não consiste, pois, em saber quais são as falhas de caráter de François Miterrand ou de não importa qual outro presidente francês. A questão que se levanta é a de saber que a pendente das instituições as conduz a ampliar os seus defeitos em detrimento de suas qualidades, que acabam por desaparecer. De qualquer ângulo que se observe, o sistema presidencial francês parece conter um vírus fatal, pois ele conduz, sem que freio nenhum possa impedir, a este resultado: existe na França um único poder, o do presidente e, ainda mais, um poder que se converte muito rapidamente em instância pessoal, arbitrária e mesmo caprichosa, sem limite, sem decência, sem a menor sanção, senão a sanção final pela demissão graças ao sufrágio universal, cuja intervenção é infelizmente muito rara para dissuadir o soberano de confundir, ao longo de sete anos, a sua subjetividade com as leis da República” [p. 13].


Em tempos de campanha presidencial, em que a presidente age mais como candidata que utiliza toda a máquina do Estado ao seu favor, com a maior cara de pau, é bom lembrar o alerta de Revel, a fim de pensarmos o que deveria ser feito para modificar esse estado de coisas. Isto é tanto mais verdadeiro quanto que a petralhada no poder pretende, volta e meia, iludir a Nação com dispositivos plebiscitários que têm como única finalidade garantir a hegemonia do PT. Devemos pensar que a culpa por toda essa deformidade institucional é principalmente das nossas instituições. Tocqueville, a respeito das desgraças causadas pelo democratismo na França, considerava que esses intentos de poder total só poderiam ser superados de forma democrática, fazendo, primeiro, uma radical crítica dos mesmos. Já está em tempo de que a opinião pública brasileira se mobilize em prol de conter essa tendência de um presidencialismo imperial, que age, agora, com ares de “revolução bolivariana”. Cadê a proposta de reforma política que poria limite a toda essa desgraça coletiva? Com a palavra os candidatos.

sábado, 19 de julho de 2014

ANTÔNIO PAIM - PARTIDOS POLÍTICOS NA EUROPA: EVOLUÇÃO E DIFERENÇAS

Antônio Paim é, entre nós, um dos pesquisadores que mais têm estudado a realidade dos partidos políticos, como fica claro no volume, de sua autoria, dedicado ao assunto no Curso de Introdução ao Pensamento Político Brasileiro  (Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho, 1994, 13 volumes, edição coordenada por ele). No que tange à realidade européia, Paim escreveu clássico da história do pensamento político intitulado: O Liberalismo Contemporâneo (3ª edição. Londrina: Edições Humanidades,  2007). Divulgo aqui recente resenha que o mestre escreveu sobre obra de Daniel-Louis Seiler, acerca da evolução dos Partidos Políticos na Europa, bem como das relações entre eles.

Comentarei aqui a obra de Daniel-Louis Seiler Clivages et familles politiques em Europe. Editions de l´Universite de Bruxelles, 2011.

O Departamento de Ciência Política da Universidade de Bruxelas corresponde, na atualidade, ao principal centro de estudos da disciplina na Europa Ocidental. Realiza pesquisas sistemáticas, muitas delas tornadas públicas no site Digithèque- Université Libre de Bruxelles, destacando-se, entre as mais recentes aquela em que se procede ao balanço dos sistemas proporcionais (incluindo os países do Leste Europeu) e a que foi denominada Le mode de scutin fait-il l´élection?. Em geral coordenadas pelos conhecidos estudiosos Pascal Delwit e Jean-Michel De Waele.

Daniel-Louis Seiler é um dos editores da obra que se tornou fonte obrigatória de consulta, que reúne ampla caracterização de Les partis politiques en Europe de  l´Ouest (Paris, Econômica, 1998). É considerado como o principal especialista contemporâneo no tema. Além dessa edição monumental, publicou, entre outras obras, Les partis politiques (Armand Collin, 2000) e Les partis politiques en Occident; sociologie historique du phénomène partisans (Ellipses, 2003). Outra de suas obras muito citada corresponde a La méthode comparative en science politique (Armand Collin, 2004).

Para lembrar, a idéia de clivagem provém da obra Party Systems and Voter Alignments  (1967), da autoria de Seymour Lipset (1922/2008) e de Stein Rokkan (1921/1979) e corresponde à busca de uma alternativa para a camisa de força imposta pelo marxismo --sistematicamente trombeteada pelos franceses. Consiste na tese de que, com a emergência do Estado Moderno e o surgimento da Revolução Industrial o conflito social subdivide-se em quatro grandes blocos: Estado/Igreja; Centro/periferia; Urbano/rural e Capital/Trabalho.

O livro de Seiler para o qual estamos aqui chamando a atenção sugere muitas idéias interessantes que vamos destacar, dispensando-nos de revisitar a minuciosa caracterização a que procede das principais famílias políticas européias. Seriam o liberalismo,  a social democracia; a democracia cristã e o conservadorismo.

Entre estas destacaria uma observação que considero  muito elucidativa para o estudo da vertente liberal. Trata-se de que os partidos políticos que buscam encarná-la têm sido vítimas do próprio sucesso e da criatividade evidenciada no curso histórico, a partir da constatação de que têm sido apropriadas pelas outras correntes igualmente destacadas, em especial as que provêm do socialismo.

A primeira dessas criações diz respeito ao governo representativo e a sua posterior democratização, seguindo-se a economia de mercado.

Os socialistas que nasceram reivindicando a tomada do poder pela força aderem ao sistema democrático-representativo, especialmente em sua forma parlamentar. Esta seria a grande bandeira da Segunda Internacional Socialista, defraudada em fins do século XIX e começos do seguinte. Nas décadas iniciais, sem romper com o marxismo, que acabaria sendo abandonado nos começos do último pós-guerra, dando nascedouro à social democracia. Esta abdica simultaneamente da estatização da economia (aderindo portando à economia de mercado) e à utopia da sociedade sem classes. Com a adesão dos trabalhistas ingleses (remember Tony Blair), torna-se a bandeira da maioria dos partidos socialistas da Europa Ocidental.

Outra observação digna de destaque diz respeito ao fato de que a abordagem da luta política pela ótica esquerda/direita achar-se-ia, na Europa Ocidental, circunscrita praticamente à França.

Avança a hipótese de que a tendência consiste em que venham a consolidar-se e enfrentar-se --considerada a Comunidade Européia e não os países isoladamente-- três grandes correntes: liberais, socialistas e sociais-democratas. Nessa hipótese, a social democracia seria liderada pelo Partido Social Democrata Alemão, contando com a adesão, na França, do grupo chefiado por Chirac-Villepin, bem como uma parte dos democratas cristãos (na Alemanha, presumivelmente CSU -União cristã- social da Baviera). O PS Francês lideraria os socialistas remanescentes na Europa aos quais se agregaria a extrema-esquerda (presumivelmente os remanescentes do PC que têm conseguido atrair outros saudosistas do comunismo, sob a bandeira do que chamam de Esquerda Unida). A facção liberal seria integrada pelo New Labour (ingleses herdeiros de Blair no Partido Trabalhista), a parcela nuclear da democracia alemã, representada pela CDU (União Cristã Democrata, principal agremiação dessa corrente na Alemanha); pelo Partido Popular Europeu (no qual destaca o PP espanhol), o PSD português e os pós-comunistas poloneses. Cabe lembrar que sobrevivem Partidos Democratas Cristãos em muitos países europeus. No conjunto da obra, enfatiza o papel do PSD português, como representante da vertente liberal.


De minha parte, a suposição que acalentei era a de que a tendência na Europa seria a predominância do embate entre sociais democratas e liberais conservadores. Tenho em vista a popularidade, entre nós, alcançada pela divisão desse grupo em liberais conservadores e liberais sociais, devida ao saudoso José Guilherme Merquior (1941/1991). Na 3ª edição de O liberalismo contemporâneo (2007) registro o virtual desaparecimento, na Europa, do liberalismo social, sobretudo em decorrência da fusão do Partido Liberal inglês com o Partido Social Democrata (fins de 1988).

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A MÁSCARA E A VERGONHA

A derrota humilhante sofrida pelo Brasil na passada Copa do Mundo de Futebol está sendo interpretada como uma prova de que o país anda mal das pernas. Não foi apenas nos campos esportivos que a nossa estrela se opacou. Também perdeu seu brilho no cenário internacional. Reconhecer esse fato é essencial para que possamos fazer frente à dura realidade que nos espera nos próximos meses. 

O lulismo, que se concretizou em doze anos de governos corruptos e ineficientes, foi o grande leviatã que tragou as nossas esperanças. A sociedade brasileira apostou na miragem lulopetista. E se enganou redondamente. O principal pecado da petralhada no poder consistiu em tomar a parte, o Partido dos Trabalhadores, como o todo, o Estado brasileiro, que deveria funcionar em benefício da Nação, não de um partido. Ora, todos sabemos que os petralhas colocaram o Partido acima de tudo. E deu no que deu: aparelhamento total do Estado em função dos interesses hegemônicos do PT. 

Essa deformidade institucional do PT, de se achar superior à Nação e ao Estado, que é o instrumento político desta, conduziu a duas derrapagens graves da nossa marcha institucional. No terreno das relações internacionais, o Estado brasileiro virou servidor de Estados párias como o cubano, desenvolvendo políticas em benefício de Cuba e dos Estados párias por ela servidos como a Coreia do Norte. Essa foi, nem mais nem menos, a linha política seguida quando o governo brasileiro decidiu fazer bondades com o governo dos irmãos Castro, construindo, com financiamento do BNDES, o Porto de Mariel, a fim de tornar possíveis as exportações ilegais de armamentos para a ditadura norte-coreana. 

Nessa linha de colocar as relações exteriores do Brasil em função dos interesses petistas, foi desenvolvida a política externa dos governos Lula que foi continuada por Dilma. A ideologia tomou a dianteira, por cima das conveniências do país. O Foro de São Paulo agiu como carta de viagem da petralhada no poder e terminou desvalorizando a séria política exterior que o Itamaraty tinha construído com paciência e grande dedicação, em décadas anteriores. O rico legado da casa do Barão do Rio Branco foi simplesmente jogado pela janela.

No plano interno, a deformidade da política petralha se manifestou no aparelhamento de todos os institutos que, como o IBGE e o IPEA, antes prestavam serviços ao Estado para melhor servir à Nação, passando a cooptá-los em benefício da hegemonia lulopetista. 

De outro lado, parece que era necessário que o Brasil passasse por esse perrengue, a fim de desmistificar de uma vez por todas o falso messianismo que ainda anima a Lula e seus sequazes. As nações não aprendem com as desgraças dos outros. Precisávamos tocar o fundo do poço, para que acordássemos e deixássemos de acreditar que o sapo barbudo tinha algo de bom a oferecer aos brasileiros.

A pior saída seria que, emplacando nesse messianismo frustrado, a sociedade brasileira caia de novo no canto de sereia. Dilma já está dizendo, do alto do palanque-palácio-do-Planalto, que o Governo teve pleno sucesso ao realizar a "Copa das Copas", sem mencionar as falcatruas, as obras desnecessárias, as maracutaias nos contratos com as empreiteiras, os viadutos que já começaram a desabar, enfim, esse rosário de sem-vergonhices que todos conhecemos, praticado à luz da pressa e da falta de transparência.

Concordo plenamente com a lúcida análise que da situação do nosso país faz o prêmio Nobel Mário Vargas Llosa no seu artigo de 12 de Julho, publicado em El País de Madri com o título de "A máscara e o gigante". Reproduzo, a seguir, o artigo de Vargas Llosa, que traduz, a meu ver, de forma clara, a nossa triste realidade. Só adicionaria um elemento conceitual à análise do prêmio Nobel: tudo é fruto de uma volta à pior tradição do Patrimonialismo luso-brasileiro, que faz da coisa pública espaço a ser distribuído entre amigos e apaniguados como se se tratasse de patrimônio familiar a ser fatiado, deixando do lado de fora os 200 milhões de brasileiros que pagamos a conta.

A MÁSCARA E O GIGANTE 
(Mário Vargas Llosa)
Fiquei muito envergonhado com a cataclísmica derrota do Brasil frente à Alemanha na semifinal da Copa do Mundo, mas confesso que não me surpreendeu tanto. De um tempo para cá, a famosa seleção Canarinho se parecia cada vez menos com o que havia sido a mítica esquadra brasileira que deslumbrou a minha juventude, e essa impressão se confirmou para mim em suas primeiras apresentações neste campeonato mundial, onde a equipe brasileira ofereceu uma pobre figura, com esforços desesperados para não ser o que foi no passado, mas para jogar um futebol de fria eficiência, à maneira europeia.
Nada funcionava bem; havia algo forçado, artificial e antinatural nesse esforço, que se traduzia em um rendimento sem graça de toda a equipe, incluído o de sua estrela máxima, Neymar. Todos os jogadores pareciam sob rédeas. O velho estilo – o de um Pelé, Sócrates, Garrincha, Tostão, Zico – seduzia porque estimulava o brilho e a criatividade de cada um, e disso resultava que a equipe brasileira, além de fazer gols, brindava um espetáculo soberbo, no qual o futebol transcendia a si mesmo e se transformava em arte: coreografia, dança, circo, balé.
Os críticos esportivos despejaram impropérios contra Luiz Felipe Scolari, o treinador brasileiro, a quem responsabilizaram pela humilhante derrota, por ter imposto à seleção brasileira uma metodologia de jogo de conjunto que traía sua rica tradição e a privava do brilhantismo e iniciativa que antes eram inseparáveis de sua eficácia, transformando seus jogadores em meras peças de uma estratégia, quase em autômatos.

Não houve nenhum milagre nos anos de Lula, e sim uma miragem que agora começa a se dissipar
Contudo, eu acredito que a culpa de Scolari não é somente sua, mas, talvez, uma manifestação no âmbito esportivo de um fenômeno que, já há algum tempo, representa todo o Brasil: viver uma ficção que é brutalmente desmentida por uma realidade profunda.
Tudo nasce com o governo de Luis Inácio 'Lula' da Silva (2003-2010), que, segundo o mito universalmente aceito, deu o impulso decisivo para o desenvolvimento econômico do Brasil, despertando assim esse gigante adormecido e posicionando-o na direção das grandes potências. As formidáveis estatísticas que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística difundia eram aceitas por toda a parte: de 49 milhões os pobres passaram a ser somente 16 milhões nesse período, e a classe média aumentou de 66 para 113 milhões. Não é de se estranhar que, com essas credenciais, Dilma Rousseff, companheira e discípula de Lula, ganhasse as eleições com tanta facilidade. Agora que quer se reeleger e a verdade sobre a condição da economia brasileira parece assumir o lugar do mito, muitos a responsabilizam pelo declínio veloz e pedem uma volta ao lulismo, o governo que semeou, com suas políticas mercantilistas e corruptas, as sementes da catástrofe.
A verdade é que não houve nenhum milagre naqueles anos, e sim uma miragem que só agora começa a se esvair, como ocorreu com o futebol brasileiro. Uma política populista como a que Lula praticou durante seus governos pôde produzir a ilusão de um progresso social e econômico que nada mais era do que um fugaz fogo de artifício. O endividamento que financiava os custosos programas sociais era, com frequência, uma cortina de fumaça para tráficos delituosos que levaram muitos ministros e altos funcionários daqueles anos (e dos atuais) à prisão e ao banco dos réus.
As alianças mercantilistas entre Governo e empresas privadas enriqueceram um bom número de funcionários públicos e empresários, mas criaram um sistema tão endiabradamente burocrático que incentivava a corrupção e foi desestimulando o investimento. Por outro lado, o Estado embarcou muitas vezes em operações faraônicas e irresponsáveis, das quais os gastos empreendidos tendo como propósito a Copa do Mundo de futebol são um formidável exemplo.
O governo brasileiro disse que não havia dinheiro público nos 13 bilhões que investiria na Copa do Mundo. Era mentira. O BNDES (Banco Brasileiro de Desenvolvimento Econômico e Social) financiou quase todas as empresas que receberam os contratos para obras de infraestrutura e, todas elas, subsidiavam o Partido dos Trabalhadores, atualmente no poder. (Calcula-se que para cada dólar doado tenham obtido entre 15 e 30 em contratos).

As obras da Copa foram um caso flagrante de delírio e irresponsabilidade
As obras em si constituíam um caso flagrante de delírio messiânico e fantástica irresponsabilidade. Dos 12 estádios preparados, só oito seriam necessários, segundo alertou a própria FIFA, e o planejamento foi tão tosco que a metade das reformas da infraestrutura urbana e de transportes teve de ser cancelada ou só será concluída depois do campeonato. Não é de se estranhar que o protesto popular diante de semelhante esbanjamento, motivado por razões publicitárias e eleitoreiras, levasse milhares e milhares de brasileiros às ruas e mexesse com todo o Brasil.
As cifras que os órgãos internacionais, como o Banco Mundial, dão na atualidade sobre o futuro imediato do país são bastante alarmantes. Para este ano, calcula-se que a economia crescerá apenas 1,5%, uma queda de meio ponto em relação aos dois últimos anos, nos quais somente roçou os 2%. As perspectivas de investimento privado são muito escassas, pela desconfiança que surgiu ante o que se acreditava ser um modelo original e resultou ser nada mais do que uma perigosa aliança de populismo com mercantilismo, e pela teia burocrática e intervencionista que asfixia a atividade empresarial e propaga as práticas mafiosas.
Apesar de um horizonte tão preocupante, o Estado continua crescendo de maneira imoderada – já gasta 40% do produto bruto – e multiplica os impostos ao mesmo tempo que as “correções” do mercado, o que fez com que se espalhasse a insegurança entre empresários e investidores. Apesar disso, segundo as pesquisas, Dilma Rousseff ganhará as próximas eleições de outubro, e continuará governando inspirada nas realizações e logros de Lula.
Se assim é, não só o povo brasileiro estará lavrando a própria ruína, e mais cedo do que tarde descobrirá que o mito sobre o qual está fundado o modelo brasileiro é uma ficção tão pouco séria como a da equipe de futebol que a Alemanha aniquilou. E descobrirá também que é muito mais difícil reconstruir um país do que destruí-lo. E que, em todos esses anos, primeiro com Lula e depois com Dilma, viveu uma mentira que seus filhos e seus netos irão pagar, quando tiverem de começar a reedificar a partir das raízes uma sociedade que aquelas políticas afundaram ainda mais no subdesenvolvimento. É verdade que o Brasil tinha sido um gigante que começava a despertar nos anos em que governou Fernando Henrique Cardoso, que pôs suas finanças em ordem, deu firmeza à sua moeda e estabeleceu as bases de uma verdadeira democracia e uma genuína economia de mercado. Mas seus sucessores, em lugar de perseverar e aprofundar aquelas reformas, as foram desnaturalizando e fazendo o país retornar às velhas práticas daninhas.
Não só os brasileiros foram vítimas da miragem fabricada por Lula da Silva, também o restante dos latino-americanos. Por que a política externa do Brasil em todos esses anos tem sido de cumplicidade e apoio descarado à política venezuelana do comandante Chávez e de Nicolás Maduro, e de uma vergonhosa “neutralidade” perante Cuba, negando toda forma de apoio nos organismos internacionais aos corajosos dissidentes que em ambos os países lutam por recuperar a democracia e a liberdade. Ao mesmo tempo, os governos populistas de Evo Morales na Bolívia, do comandante Ortega na Nicarágua e de Correa no Equador – as mais imperfeitas formas de governos representativos em toda a América Latina – tiveram no Brasil seu mais ativo protetor.
Por isso, quanto mais cedo cair a máscara desse suposto gigante no qual Lula transformou o Brasil, melhor para os brasileiros. O mito da seleção Canarinho nos fazia sonhar belos sonhos. Mas no futebol, como na política, é ruim viver sonhando, e sempre é preferível – embora seja doloroso – ater-se à verdade.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

SETE GOLS E UM DESTINO

Chega ao fim de forma um tanto triste esta Copa das Copas da nossa mediocridade, com "Padrão FIFA" de transparência, por conta das gatunagens das empreiteiras Delta e Companhia, que, aliadas ao descaso do Governo Federal e de algumas administrações estaduais e municipais,  já estão causando vítimas com a queda de viadutos e por conta também da turminha do "Fofana & Cia", especializada em desviar entradas para os jogos e repassá-los a preço de ouro aos otários e espertinhos pela via de uma equipe bem treinada de cambistas internacionais e tupiniquins. 

Pego parcialmente da imprensa internacional o título deste comentário. "Siete goles y un funeral" rezava a manchete de conhecido jornal portenho  inspirada no conhecido filme, intitulado: "Quatro casamentos e um funeral" (do diretor britânico Mike Newell, 1994). Prefiro, no entanto, "destino" a "funeral" no título destas linhas, a fim de deixar uma janela aberta por onde possa entrar uma luz de esperança. Inspiro-me, para tanto, em título de um outro clássico do cinema: "Sete homens e um destino" (western do diretor americano William Roberts, 1960).

A participação "meia-sola" da equipe brasileira foi realmente lamentável. Poderia ter sido bem melhor sem a teimosia do Filipão, sem e "generosa" disciplina que concedeu dias livres à equipe enquanto os outros treinavam e sem a campanha midiática da Globo erguida sobre o espírito triunfalista de praxe. Claro que pesou a falta de espírito esportivo do colombiano Zúñiga, que tirou ardilosamente da competição o artilheiro Neymar e que foi absolvido, de forma absurda, pela FIFA, enquanto o atacante mordedor do Uruguai já tinha sido punido com exemplar disciplina. Do ponto de vista das obras de infra-estrutura, as coisas teriam saído bem melhor sem a conhecida corrupção dos políticos e dos empresários por eles cooptados, que poderiam ter trilhado o caminho das obras preparatórias com mais transparência e menor peso para o bolso dos contribuintes. 

Pelo menos, aos trancos e barrancos, a infraestrutura aeroportuária e rodoviária funcionou, bem como o trabalho das equipes que organizaram o espetáculo nos vários estádios e a segurança, em que pese a excessiva tolerância com os fornecedores e consumidores de drogas na Vila Madalena, em São Paulo, que protagonizaram, sob o olhar "compreensivo" das autoridades, um verdadeiro feirão do pó, que azucrinou a vida dos moradores desse bairro. O resultado da competição está aí e não adianta chorar sobre o leite derramado. Vamos olhar para frente, sendo a primeira providência tirarmos algumas lições dos fatos.

Primeira lição: é possível ter uma equipe excelentemente treinada, técnica, entroçada, sem um custo extraordinário. Está aí o exemplo da equipe alemã, uma verdadeira máquina de fazer gols sem a catimba sul-americana e respeitando as regras do jogo. Belo espetáculo deu aos torcedores e ao público em geral a turma da Alemanha. E, como rezava cartaz carregado por um torcedor, com um governo que garante aos cidadãos desse país, não só bom futebol, mas também hospitais, escolas, segurança e habitação de primeiro mundo. 

Segunda lição: a hospitalidade correu por conta do povo brasileiro, que soube receber os visitantes estrangeiros de braços abertos e com a típica alegria que nos caracteriza perante outras nações. A festa do futebol foi bonita. Fraterno foi o convívio de brasileiros e estrangeiros ao longo destes dias. As ruas foram sendo ornamentadas com símbolos do nosso esporte mor, pelas crianças e pelos jovens que saíram com as suas famílias e bichinhos de estimação de forma entusiasmada e ordeira. Amigos se reuniram, pelo país afora, para assistir juntos às apresentações dos vários times, ao redor de improvisados churrasquinhos e lanches. Foi lindo ver famílias inteiras entrando nos estádios e animando com cantorias e "olés" a nossa seleção, bem como aquelas equipes que foram consideradas mais afins ao nosso jogo. Fantasias originais coloriram o desfile de torcedores na entrada dos estádios e pelas avenidas das nossas cidades. Tudo em ordem e sem depredação do patrimônio público. Os brasileiros conseguimos dar aos nossos visitantes uma prova de civilidade e calor humano. Isso é importante porque forma parte do nosso "soft power", neste contexto instável de uma globalização problemática.

Terceira lição: vamos fazer o dever de casa na campanha que já está rolando para as eleições de outubro, exigindo rigorosa prestação de contas das obras feitas, das não feitas e daquelas que caíram e vitimaram pessoas, por conta da falta de fiscalização, do superfaturamento e das falcatruas de empreiteiras e gestores públicos desonestos. Tudo isso tem de ser cobrado nas próximas semanas. Assim estaremos sedimentando a base para outros empreendimentos de caráter internacional que se avizinham, como as Olimpíadas do Rio.