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terça-feira, 29 de março de 2016

OS PRÉ-SOCRÁTICOS E A CONCEPÇÃO DO HOMEM COMO CIDADÃO DO COSMO

Região do Mediterrâneo Oriental, das Ilhas Cíclades e da "Magna Grécia" onde viveram os Pré-socráticos.

Amanhecer no espaço - Fotografia da Estação Espacial Internacional, Fevereiro 2016. (NASA)


Introdução - Os Pré-socráticos foram os primeiros filósofos do Ocidente.  O objeto da sua reflexão foi o Cosmo, de longa data observado pela Humanidade, já desde a sua pré-história, há 100 mil anos atrás. Aristóteles denominou-os de “físicos”, pela importância que conferiam ao estudo do Universo e da Natureza. Mas a meditação deles também se projetou sobre o ser humano, abarcando-o como “habitante da casa cósmica”, a Terra. Ao observar os fenômenos naturais, deitaram as bases do método científico que, séculos depois, seria consagrado no Ocidente. Observaram os fatos, formularam hipóteses, desenvolveram discussões e análises acuradas para verifica-las, terminaram formulando “leis”. Utilizaram pioneiramente os números, não apenas para identificar a plenitude das perfeições divinas, mas também para calcular e expressar achados. E, em toda essa caminhada rumo ao pensamento racional, mantiveram uma ponte com o pensamento mítico.

Os Pré-socráticos viveram no Mediterrâneo Oriental, ocupando as ilhas que povoam essa região, bem como as cidades costeiras hoje pertencentes à Turquia. Viveram e ensinaram, também, nas Ilhas do Mar Egeu, bem como no território hoje ocupado pela Grécia, pela Sicília e pela Itália continental, no sul, na região do Golfo de Tarento e no nordeste, na área banhada pelo Mar Adriático. Toda essa região era conhecida como a “Magna Grécia”.

Do ângulo sócio-político, a característica fundamental dessa ampla área onde viveram os Pré-socráticos, ao longo dos séculos VI e V a. C., consistiu na ausência de um governo central forte. Prevaleciam, nessa época, as cidades-estados. E a atividade comercial era a principal ocupação econômica. O ambiente de liberdade era a tônica das cidades dessa parte do Mundo Antigo. Liberdade de movimentação, liberdade de trocas, liberdade de crenças, liberdade de pensamento. Os Pré-socráticos, com as suas variadas teorias acerca do Cosmo, das incertezas e esperanças do Homem, da constituição da Natureza e da cidade-estado, revelam esse ambiente de liberdade de pensamento.

Justamente essa ausência de controles sobre o pensamento foi o que possibilitou a diversidade e o ambiente crítico. Tudo era submetido ao crivo da razão e das conveniências dos indivíduos. É claro que, nas cidades-estados da época, volta e meia apareciam tiranos que pretendiam colocar tudo sob o seu domínio. Mas o ambiente geral de liberdade comercial tornou possível que se fizessem críticas a tais desmandos e que os pensadores pudessem emigrar para cidades onde havia um clima de maior tolerância. Isso explica a transumância desses filósofos, que ora moravam nas cidades da costa oriental do Mediterrâneo, ora se deslocavam para a Grécia continental, para as Ilhas Cyclades, ou para a longínqua Sicília e as costas do Sul e do nordeste da Itália.

Antes de abordar o pensamento dos Pré-socráticos, lembremos alguns dados da história da Grécia Antiga, bem como da democracia ateniense, nessa remota época dos séculos VI e V a. C. A seguir, será analisado o pensamento de Tales de Mileto, Pitágoras de Samos, Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eléia.

1 - ALGUMAS DATAS E DADOS MARCANTES DA HISTÓRIA DA GRÉCIA ANTIGA
  • 1.650-1.600 a. C. Ocorreu, nesse período, a primeira erupção vulcânica que destruiu a Ilha de Tera (a 75 quilômetros a sudoeste da Grécia continental, no extremo sul do arquipélago das Ilhas Cyclades, com uma área total de 76 quilômetros quadrados).
  • 1.400-1.150 a. C. Ocorreu, nesse período, a segunda explosão vulcânica que arrasou o que tinha restado da Ilha de Tera. Esse evento telúrico deu ensejo ao “Mito da Atlântida” registrado por Platão (nos seus diálogos Timeu e Crítias).
  • 776 a. C. Começaram os Jogos Olímpicos.
  • 620-605 a. C. Tirania de Pisístrato e dos seus filhos Hípias e Hiparco, em Atenas.
  • 600 a. C. Reformas de Sólon.
  • 600 a. C. – 500 a. C. Período dos “Filósofos pré-socráticos”, originários do Mediterrâneo Oriental e das Ilhas Gregas.
  • 500 a. C. Revolução e Reformas de Clístenes, em Atenas. A cidade, para se proteger dos invasores estrangeiros, muda o perfil agrícola e pastoril, centrado na autoridade dos anciões, e passa a se constituir como sociedade militar chefiada pelos guerreiros e aberta ao comércio.
  • 500-400 a. C. “Idade de Ouro” de Atenas, no denominado “Século de Péricles”.
  • 461-430 a. C. Período de Péricles.
  • 430 a. C. Peste de Atenas e início da decadência da cidade-estado. Observemos que os grandes pensadores de Atenas aparecem quando a cidade-estado começa a decair:
  • 470 a. C.-399 a. C. Sócrates.
  • 428 a. C.-347 a. C. Platão.
  • 384 a. C.-324 a. C. Aristóteles.

 2 - ALGUNS DADOS SOBRE A DEMOCRACIA ATENIENSE (ANOS 500-400 a. C.)
  • Habitantes de Atenas: 400.000.
  • Cidadãos eleitores: 40.000.
  • Assembleia: 5.000 membros. Provinham das 10 tribos em que se dividia toda a população existente na região de Atenas. Era um poder que hoje chamaríamos Constitucional, porque definia as bases fundamentais do convívio político.
  • Conselho: 500 membros. Correspondia, servatis servandis, ao nosso Legislativo atual. Em 594 a. C. Sólon criou o Conselho com 400 membros, que passaram a 500 a partir das reformas de Clístenes em 507 a. C. A principal inovação consistiu em estabelecer, como principio básico, a «isonomia» ou igualdade de todos los cidadãos de Atenas perante a lei. Dessa forma, foi abolida a forma aristocrática de governo. O Conselho, denominado de Bulé, era responsável pelas funções administrativas e pela preparação das leis e a participação nele não se restringia à aristocracia, sendo assim um órgão popular de governo. Cada tribo, das dez existentes, indicava 50 membros para o Conselho. Clístenes estendeu os direitos de participação política a todos os homens livres nascidos em Atenas: os cidadãos. Desse modo, consolidava-se a democracia ateniense. Esta, no entanto, era restrita. Dos 400 mil habitantes que Atenas tinha no século V a. C., somente 10% possuíam direitos civis e políticos. Ficavam excluídos da vida pública, entre outros, os estrangeiros residentes em Atenas (os chamados “metecos”), bem como os escravos e as mulheres, ou seja, a maior parte da população.
  • Areópago (composto por Arcontes aposentados, pertencentes à aristocracia): 31 membros. Era um Conselho que exercia as funções de Tribunal Supremo e que cuidava, também, de assuntos como educação e ciência.
  • Arcontado: 9 membros pertencentes à aristocracia e que se denominavam Arcontes. Este órgão exercia as funções de governo. Inicialmente os seus membros recebiam um mandato de 10 anos, tempo que foi sendo reduzido até chegar a um ano. O Arcontado era presidido pelo Arconte-rei, encarregado das funções religiosas.
  • Domínio da Pérsia sobre a Ásia Menor: ocorre entre 550-500 a. C. e condiciona a Revolução de Clístenes, em Atenas (507 a. C.). Nesse período ocorre a transcrição da Ilíada e da Odisseia, atribuídas a Homero. Essas obras constituem o novo mito guerreiro, sobre o qual se alicerçam as reformas de Clístenes.
  • Invasões dos Persas à Grécia: ocorreram três, entre 490 e 449 a. C.
  • Duas raízes culturais remotas de Atenas: Civilização Minoica (que floresceu em Creta entre 3.000 e 1.400 a. C.), de caráter humanístico, e Civilização Micênica (que floresceu em Micenas, na Grécia continental, na região do Peloponeso, entre 1.600 e 1050 a. C.), de caráter militar, dando ensejo à lenda de Agamêmnon.
  • Decadência da Civilização Minoica e progressivo avanço da Civilização Micênica, a partir da lenta decadência da primeira, ao ensejo dos eventos telúricos que acompanharam a desaparição da Ilha de Tera, no Mediterrâneo Oriental (entre 1.650 e 1.150 a. C.). Essas duas civilizações, a Minoica e a Micênica, são responsáveis pelos dois aspectos marcantes da civilização ateniense: espírito guerreiro (herdado dos Micênicos) e profunda tradição humanística (herdada dos Minoicos).

3 – TALES DE MILETO (626 a. C. – 556 a. C.)

De ascendência fenícia, Tales nasceu em Mileto, na Jônia (antiga Ásia menor). De acordo com os historiadores foi o primeiro físico grego que estudou as coisas da natureza como um todo. A sua obra, como a da maior parte dos Pré-socráticos somente se conhece por fragmentos que chegaram até nós, conservados por escritores antigos como Aristóteles e Simplício. Aristóteles frisa que Tales se preocupou por explicitar uma teoria acerca dos fundamentos da natureza, destacando que nela assinalou um princípio permanente ou substancial, sendo que ele identificava tal princípio como água. Ora, o sentido deste termo era entendido em duas dimensões: como princípio substancial radical do qual tudo se compõe e, de outro lado, como elemento que aparece em forma líquida e que constitui boa parte da natureza.  Podemos identificar, em Tales, uma tríade conceitual: Água primordial (princípio metafísico de tudo); Água (elemento líquido); Terra (elemento sólido que flutua sobre a água).

A respeito frisa Aristóteles na sua Metafísica: “A maior parte dos primeiros filósofos considerava como os únicos princípios de todas as coisas os que são da natureza da matéria. Aquilo de que todos os seres são constituídos e de que primeiro são gerados e em que por fim se dissolvem, enquanto a substância subsiste mudando-se apenas as afecções, tal é, para eles, o elemento (stokeion), tal é o princípio dos seres, e por isso julgam que nada se gera nem se destrói, como se tal natureza subsistisse sempre. (...) Pois deve haver uma natureza qualquer, ou mais do que uma, donde as outras coisas se engendram, mas continuando ela a mesma. Quanto ao número e à natureza destes princípios, nem todos dizem o mesmo. Tales, o fundador de tal filosofia, diz ser a água (o princípio). É por este motivo também que ele declarou que a terra está sobre água, levado sem dúvida a esta concepção por ver que o alimento de todas as coisas é úmido, e que o próprio quente dele procede e dele vive (...). Por tal observar adotou esta concepção, e pelo fato de as sementes de todas as coisas terem a natureza úmida; e a água é o princípio da natureza para as coisas úmidas. (...)”.[1]

Tales formulou, portanto, um princípio metafísico: tudo provém de um princípio único: a água. Mas, de outro lado, caracterizou os fenômenos observados utilizando também o conceito de água, para explica-los em termos científicos. Tales considerava que a terra flutuava no oceano como se fosse um barco. A sua hipótese é uma antecipação da moderna teoria da deriva dos continentes e das placas tectónicas. Havia tremores de terra quando a “barca” era agitada pelas águas do oceano e se deslocava. Simplício lembra a respeito o seguinte texto de Tales: “(...) Donde é cada coisa, disto se alimenta naturalmente: água é o princípio da natureza úmida e é continente de todas as coisas. Por isso (...) a água é o princípio de tudo (...) e a terra está deitada sobre ela (...)”.[2]

Tales, como os outros Pré-socráticos, manteve, também, uma ponte com o pensamento mítico. Aristóteles lembrava, a respeito, que alguns fragmentos de Tales de Mileto faziam alusão a uma antiga mitologia, segundo a qual tudo quanto existe provém de Estige (as Águas Primordiais), das quais surgiram Oceano (Água que cerca o mundo, pai de todos os rios) e Tetis (uma das Nereidas, divindades marítimas).

Os filósofos modernos consideram que Tales é o pai do pensamento filosófico, em decorrência do fato de ter postulado um princípio único de onde provém toda a realidade. A propósito, Hegel, nas suas Lições de história da filosofia (obra escrita em Heidelberg em 1816) frisava: “A proposição de Tales de que a água é o absoluto ou, como diziam os antigos, o princípio, é filosófica; com ela a Filosofia começa, porque através dela chega à consciência de que o um é a essência, o verdadeiro, o único que é em si para si”.[3]

Nietzsche, na sua obra Os filósofos trágicos (1873), escreve: “(...) Tales não superou o estágio inferior das noções físicas da época, mas, no máximo, saltou por sobre ele. As parcas e desordenadas observações da natureza empírica que Tales havia feito sobre a presença e as transformações da água ou, mais exatamente, do úmido, seriam o que menos permitiria ou mesmo aconselharia tão monstruosa generalização; o que o impeliu a esta foi um postulado metafísico, uma crença que tem sua origem em uma intuição mística e que encontramos em todos os filósofos, ao lado dos esforços sempre renovados para exprimi-la melhor – a proposição: Tudo é um (...). Assim contemplou Tales a unidade de tudo o que é: e quando quis comunicar-se, falou da água!”.[4]

4 - PITÁGORAS DE SAMOS (580 a. C.- 497 a. C.)

Nasceu na Ilha de Samos, distante de Mileto 50 quilômetros. Participou de um renascimento religioso que ocorreu na Grécia ao longo do século VI a. C. Era filho do gravador miniaturista Mnesarco, de origem aristocrática. Na sua juventude, entrou em contato com a corte de Polícrates de Samos, célebre tirano que incentivou as artes e as técnicas.

O ambiente hedonista e requintado de Samos não agradou a Pitágoras, que emigrou para Crotona, no golfo de Tarento (sul da Itália). Pitágoras organizou uma ordem mística, de homens e mulheres, governada por uma elite dedicada à busca da sabedoria. Nessa empreitada, o filósofo recebeu influências místicas do oriente (culto de Amon Ra, no Egito; mitologia babilônica; zoroastrismo persa e budismo), bem como da mitologia celta.

Encontramos três dimensões nos ensinamentos pitagóricos: em primeiro lugar, conceitos ético-religiosos; em segundo lugar, uma doutrina metafísica (teoria do ser); em terceiro lugar, reflexões sócio políticas. Nesta exposição centraremos a atenção na doutrina metafísica de Pitágoras. Nela, encontramos uma tríade que se explicita da seguinte forma: Unidade primordial (que no Universo consiste num Fogo Central, ao redor do qual giram os planetas), que se torna presente no Péras (=Determinado, que se traduz na série de números aritméticos ou monódicos) e no Ápeiron (= Indeterminado, que se traduz na série de números geométricos).

Os aspectos fundamentais da doutrina filosófica pitagórica são os seguintes:

A – Dualismo entre corpo (soma) e alma (psyché). O corpo, elemento inferior e perecível, deve ser dominado pela alma. Ela está condenada a se reencarnar em outro ser vivo (homem, animal, ou planta), até que a completa catarse ou purificação for atingida. A saga de reencarnações pode ser quebrada por quem desenvolver a sabedoria (filosofia) e a ciência. A alma individual é uma partícula decaída que se desgarrou de um reservatório psíquico único.

B – A redenção da alma se dá pelo conhecimento. A fim de restaurar a unidade perdida e ser resgatada do pecado original causado pelo orgulho e a violência (hybris), a alma deve dedicar-se de preferência à contemplação (theoria) da harmonia que rege o mundo e é, pela sua beleza, um selo da obra divina. Nós, seres humanos, tornamo-nos semelhantes àquilo que ocupa o centro da nossa atenção. O equilíbrio interior obtém-se pela absorção mimética do Cosmos ou ordem natural, exterior a nós.

C – A harmonia do Universo pode ser apreendida e simbolizada com a ajuda dos números (arithmós). A música é expressão dessa harmonia. Como todas as coisas estão integradas numa totalidade harmônica, Pitágoras conclui que “as coisas são números”.

D – Os pitagóricos deram ensejo a grandes progressos na geometria e na aplicação da matemática à classificação dos seres materiais e dos seres vivos em pares e ímpares. Pitágoras foi, igualmente, o responsável pela descoberta do valor da hipotenusa num triângulo retângulo, dadas as medidas dos respectivos catetos.

5 - HERÁCLITO DE ÉFESO (540 a. C.-470 a. C)

Heráclito era originário de Éfeso, cidade da Jônia. A sua família tinha raízes aristocratas, pois descendia do fundador da cidade. O pensador era dono de um caráter altivo, bem como de traços misantrópicos. Essas características misturavam-se, nele, com um temperamento melancólico. Menosprezava a plebe. Fazia questão de não intervir em política. E tinha uma posição de crítica azeda contra os antigos poetas, bem como em face dos filósofos da sua época. Era crítico do fanatismo religioso. Escreveu um livro Sobre a Natureza, em dialeto jônico e em prosa. O seu auge como pensador deu-se entre os anos 504-500 a. C. 

Heráclito foi, tradicionalmente, apresentado como o “filósofo do devir”. Mas não seria exato dizer que esse conceito é o único que prevalece no seu pensamento. Encontramos, nele, certamente, a imagem do rio, como no seguinte trecho: “São águas sempre novas as que correm no mesmo rio e outros os que flutuam sobre elas”. Mas, se encontramos aqui a idéia de devir, de movimento, encontramos também a idéia de permanência. É no seio do mesmo rio por onde correm as águas sempre novas. Essa idéia de permanência aparece, também, neste texto que se refere ao sol: “O sol é novo cada dia, mas ele não ultrapassa os limites que lhe são próprios. Se não fosse assim, as Erínias, guardiãs da Justiça, o saberiam encontrar”. Achamos idéia semelhante neste outro texto: “O fogo se converte em mar e uma metade do mar vira terra, enquanto a outra se converte em nuvem ardente. No entanto, o mar não cessa de provir do mesmo Logos, a partir do qual ele se originou, antes mesmo de que nascesse a terra” [5].

Existe, pois, no pensamento de Heráclito, permanência sob o movimento das coisas. Essa relação entre permanência e movimento é ilustrada por Heráclito com a imagem do combate. Nada pode chegar a ser, senão mediante uma luta entre contrários. A respeito frisa Heráclito: “Deus é o dia e a noite, o inverno e o verão, a guerra e a paz, a abundância e a carência; ele se converte em outro como o fogo misturado aos aromas, ele é chamado como melhor agradar a cada um”. O combate (pólemos) tudo permeia. É o que o filósofo afirma no seguinte texto: “O combate é pai de tudo, rei de tudo. É ele que faz com que uns pareçam deuses, outros homens, outros escravos, outros livres”. O combate, para Heráclito, é a unidade dos contrários. O pensador exprime essa idéia acudindo às imagens do arco e da flecha, e das cordas da lira: é graças à sua tensão que é produzido o som. O combate é também harmonia, mas não estática, mas dinâmica, entendida como tensão entre o movimento e o repouso. (Anotemos, de passagem, que a imagem da tensão das cordas da lira serviu de inspiração, na Cosmologia contemporânea, à Teoria das Cordas).

 Heráclito considera que é necessária a crítica aos sentidos, por parte da razão, que é participação do Logos. Isso significa que eles podem errar ao estarem vinculados aos aspectos contraditórios do real, sem perceberem a unidade que há na discórdia. O fruto da discórdia e da composição entre contrários é a unidade. Heráclito dá um nome paradoxal à mesma: combate integrador (pólemos xynon). Este processo integrador (xynon) não é a harmonia platônica, nem a idéia que paira acima da diversidade. Pólemos xynon é aquilo que congrega, de forma semelhante a como a lei reúne os cidadãos da polis. E essa lei unificadora se alimenta do Único que é o Logos, ou seja, ela é eclosão, unidade conseguida através de oposições entre as diferenças. Zeus é o combate, o pai, o rei; ele, por outra parte, é também o fogo, aquele que vive sem cessar, aquele que se ilumina em todas as suas dimensões, aquele que se estende segundo as medidas, ele é o nexo e o lugar de encontro dos contrários.

Estas idéias subjazem à frase paradoxal de Heráclito: “A natureza gosta de se esconder”, que tantas repercussões terá ao longo da História da Filosofia Ocidental, no meio helenístico (entre epicuristas e estoicos) e, posteriormente, no pensamento renascentista e nas filosofias empiristas, notadamente no seio da meditação anglo-saxã. A natureza é eclosão sem-fim à qual ninguém pode se furtar. Ela é o desvelamento mesmo. A natureza faz vir as coisas à tona, ela as deixa se manifestar mas, ao mesmo tempo e de forma paradoxal, ela nos rouba a unidade do lar da presença no qual se dá essa manifestação. Destarte, a eclosão das coisas, a sua vinda ao espaço da manifestação é, ao mesmo tempo, dissimulação da presença radical que as sustenta. No arrazoado de Heráclito podemos encontrar uma tríade radical: O Fogo, (Logos universal de onde tudo provém), o Mar (que produz evaporações brilhantes) e a Terra (que produz evaporações tenebrosas).

6 - PARMÊNIDES DE ELÉIA (530 a. C. – 460 a. C.)

Parmênides nasceu em Eléia (hoje Vélia, província de Salerno, no sul da Itália). Estudou com o pitagórico Amínias. Provavelmente foi também discípulo de Xenófanes. Consta que criticou os pensadores Jônios, junto com Zenão, em Atenas. Escreveu o famoso poema intitulado Sobre a natureza que consta de um preâmbulo e duas partes, sendo que a primeira delas se refere à verdade e a segunda à opinião. Parmênides combate, ao mesmo tempo, o dualismo pitagórico e o conceito de movimento de Heráclito.
No seu célebre poema, Parmênides distingue a via da não-via [6]. A primeira constitui o caminho verdadeiro; a segunda, o que está cheio de falsidades. A não-via é o caminho do não-ser, a via verdadeira é o caminho do ser. Os signos do ser são os seguintes: ele não é gerado, não é perecível, não é alterável, é imóvel, sem passado, sem futuro, sem fim. Do ponto de vista positivo, ele é de complexão íntegra, continuamente presente, inteiro e, ao mesmo tempo, único. Esses signos são o ser mesmo, definem a participação nele. Encontramos na reflexão de Parmênides uma tríade básica: o Ser (princípio de onde tudo provém), a Via (caminho da verdade) e a Não-Via (caminho da falsidade).

Se ao lado da via do ser encontramos a da não-ser, que está cheia de falsidades e na qual não podemos acreditar pelo fato de ser a via da aparência, como devemos compreendê-la? Apresentam-se, aqui, duas interpretações: para uns, é uma via de falsidade. Parmênides, ao se referir a esta via quer, talvez, refutar alguns dos seus predecessores, possivelmente Heráclito. Para outros, Parmênides desenvolve, aqui, uma hipótese sem valor filosófico, formulada para aqueles que não são capazes de coisas melhores.

Jean Beaufret, segundo Heidegger, propõe outra interpretação: esta terceira via é a das dokounta, das coisas que aparecem, que se mostram no plano fenomenal. É o domínio da inconstância. No momento em que cremos apreender as coisas, elas já se converteram em outras. Há, nelas, uma radical dualidade de formas. Mas essa via das dokounta não é ilusória, não seria necessário interpretá-la a partir de uma concepção platônica. Se o ser é colocado na primeira via, é para indicar que ele se diferencia radicalmente de todo ente. A via das coisas que aparecem é a dos entes. A dóxa é o domínio da denominação. Encontramos, aqui, a força da Palavra que diferencia e que, por isso mesmo, individualiza as coisas. O ente é passagem, mas o ser é a dimensão pela qual se mede a amplitude possível de sua presença. O ser é foco de iluminação, mas ele não é perceptível enquanto tal. Ele se revela somente através da diversidade dos entes.

A ambiguidade dos seres significa que toda presença está contaminada com a ausência; é por isso que não podemos confiar naquilo que aparece. Mas isso não implica num ceticismo absoluto, pois nenhuma ausência é irreparável. O que caracteriza as dokounta (= as coisas que aparecem) é menos a sua pluralidade do que o dimorfismo que as habita (ou seja, a dualidade, nelas, da presença e da ausência).

O erro provém do fato de isolarmos um aspecto. A unidade, efetivamente, não pode ser procurada no mundo dos entes. É o ser que é a unidade. O ente é só passagem. Isso nos leva a compreender o sentido da implicação essencial do dia e da noite. Vemos, aqui, como as categorias do mito se prolongam nas categorias especulativas do pensamento ontológico.

Bibliografia

ARISTÓTELES, Metafísica, livro I, cap. 3, parágrafo 983. In: Os Pré-Socráticos. (Tradução de J. Cavalcanti de Souza e outros). 4ª edição. São Paulo: Nova Cultural, 1989.

HEGEL, Lições de história da filosofia. In: Os Pré-Socráticos. (Tradução de J. Cavalcanti de Souza e outros). 4ª edição. São Paulo: Nova Cultural, 1989.

LADRIÉRE, Jean. Elements de Critique des Sciences et de Cosmologie – Année académique 1966-1967. Louvain: Université Catholique, 1967 (mimeo.).

NIETZSCHE, Os filósofos trágicos. In: Os Pré-Socráticos. (Tradução de J. Cavalcanti de Souza e outros). 4ª edição. São Paulo: Nova Cultural, 1989.

SIMPLÍCIO. Física, 23, 21. In: Os Pré-Socráticos.  (Tradução de J. Cavalcanti de Souza e outros). 4ª edição. São Paulo: Nova Cultural, 1989.





[1] ARISTÓTELES, Metafísica, livro I, cap. 3, parágrafo 983. In: Os Pré-Socráticos. (Tradução de J. Cavalcanti de Souza e outros). 4ª edição. São Paulo: Nova Cultural, 1989, p. 7.
[2] SIMPLÍCIO. Física, 23, 21. In: Os Pré-Socráticos. Ob. cit., p. 7.
[3] HEGEL, Lições de história da filosofia. In: Os Pré-Socráticos, ob. cit., p. 7.
[4] NIETZSCHE, Os filósofos trágicos. In: Os Pré-Socráticos, ob. cit., p. 10-12.
[5] Para os textos citados aqui, bem como para a linha de raciocínio que seguimos, temos nos baseado na obra de Jean LADRIÉRE, Elements de Critique des Sciences et de Cosmologie – Année académique 1966-1967. Louvain: Université Catholique, 1967 (mimeo.).
[6] Temos nos baseado, para estas considerações, em LADRIÈRE, Jean. Elements de Critique des Sciences et de Cosmologie – Année académique 1966-1967. Louvain: Université Catholique, 1967 (mimeo.).

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